Postado em 26 de fevereiro de 2019

O novo governo e a ciência quântica

Autor: Humberto Azevedo

Enquanto a oitava semana do novo governo federal que se instala foi agitada, desde os áudios Bebianno-Bolsonaro que tomou conta das conversas da última terça-feira, 19 de fevereiro, até o anúncio da mega, hiper, ultra e radical proposta apresentada na quarta-feira, 20 de fevereiro, com a finalidade de querer praticamente fazer uma revolução no sistema previdenciário brasileiro. Uma teoria quântica considerada surreal pela maioria dos cientistas pode ser o início, o fim e o meio para a compreensão do que temos de conhecimento seja da matéria, seja da energia.

O entendimento não estaria no átomo e, sim, nos espaços. Para ser mais preciso, no vácuo. Algo impensável até algumas décadas. A matéria, através da energia, ganha concretude, quando ao mesmo tempo é abstrata. Confuso, não? Pois é! Seria a partir daí a possibilidade de entendermos o que vai e o que vem. Mas que, na verdade, não vai e nem vem. Fica! Dizem os entendidos da nova era, não a “nova era” a qual os bolsonarianos andam clamando por aí, que é ela a responsável por tantas mudanças de paradigmas que vem ocorrendo. Tornando palatável a clássica frase de Karl Marx de que tudo que é sólido se desmancha no ar.

Mas voltando a matéria, não matéria especificamente dita, mas aquela que os nobres 594 parlamentares deverão votar para definir a aposentadoria minha, sua e de todos em nossa volta no país, a impressão colhida é que foi mesmo colocado um enorme “bode fedido e fedorento na sala” com o intuito de causar pânico que não há solução fora da caixinha. E que não há remédio de cura ao doente enfermo que não as mudanças das regras previdenciárias para permitir ao gigante adormecido, que acorda de vez em quando, a volta ao emprego, ao crescimento e ao desenvolvimento.

Não à toa, o homem escolhido por Eduardo Cunha (preso na penitenciária Almirante Tamandaré, em Curitiba, mas que nem por isso deixa de ter influência nas esferas do poder) para ser relator da reforma previdenciária do governo Temer, o deputado Arthur Maia (DEM-BA), anda se reunindo com o espectro empresarial que manda a convite do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) para tratar das “medidas possíveis” para uma nova previdência do Brasil.

Interessante notar que um dia após o anúncio que suprimiu os áudios de lavadeiras que tomou conta das redes sociais com a apresentação de uma proposta que muda tudo, mas que essencialmente não mexe com as estruturas sociais estabelecidas em mais de 519 anos, o relator da proposta que afligia a população surge como algo concreto no imenso abstrato oferecido. Não se esqueçam que a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 287/16 não foi arquivada. Ela apenas encontra-se no limbo enquanto, agora, a estrela da companhia será a PEC 06/19 que conseguiu a proeza – de tão ruim – desagradar a gregos e a troianos. É o tal “bode fedido e fedorento na sala” que faz o projeto de Temer parecer um cordeirinho.

Não seria de estranhar que a proposta possível seja a que já se encontra apta e pronta para deliberação no plenário da Câmara. Mas como o novo governo que ainda tenta se ajeitar precisa dos holofotes como forma de não parecer velho, exatos 53 dias de gestão, a PEC 06/19 é apenas um mecanismo para promoção de ilusão ótica. Porque a que vai passar – com um retardo de quase dois anos, muito graças aos efeitos provocados pelas confissões de Joesley – será a PEC 287/16.

(*) Artigo publicado originalmente na edição 1.670, de 23 de fevereiro, do jornal O Vale da Eletrônica de Santa Rita do Sapucaí (MG).

Humberto Azevedo
Jornalista e consultor político
Humberto Azevedo é jornalista profissional, repórter free lancer, consultor político, pedagogo com especialização em docência do ensino superior, além de professor universitário, em Brasília (DF).