Postado em 12 de março de 2019

A ressaca carnavalesca

Autor: Humberto Azevedo

Bem, enfim o país começará – de fato – sua vida em 2019. Até agora, tudo não passou de ensaios. O carnaval, enfim, propiciou folia aos foliões, descanso aos cansados, e como sempre, serviu de termômetro para o que vem por aí.

A previsão feita pelo cientista político e professor da Universidade de Brasília (UnB), Paulo Kramer, de que não haveria “lua de mel” entre o governo eleito em outubro de 2018 e a sua plebe que o elegeu, aconteceu. O clima hostil foi mostrado Brasil afora pelos vários integrantes momescos que pularam o carnaval.

A resposta do presidente não poderia ser mais singular. Enfurnado no Palácio da Alvorada passou o período de festas com a família, ou plugado nas redes sociais que tanto lhe ajudaram a se eleger. Provocou, criou confusão virtual e compartilhou com o país inteiro um vídeo pornográfico gay em que acusou no que teria se transformado o período carnavalesco.

Como sempre, depois passou a afirmar – através da comunicação do porta-voz oficial – que o propósito não era esculhambar o carnaval e, sim, parte do que seria degradante nos períodos momescos. Mas o estrago já estava feito. O mundo civilizado perguntava incrédulo se tal postagem fora feito mesmo pelo presidente da República Federativa do Brasil.

Desconfortos

Tal episódio, mais um da lista de polêmicas que parece não ter fim, vai se avolumando com o histórico de malfeitos não explicados. Empoderados graças a encarnação da figura messiânica e mítica que fez surgir das urnas de 2018, a cúpula militar que o cerca em torno do poder já dá sinais claros dos desconfortos que os episódios lhes causam.

Vai aumentando o sentimento de que o país precisa de um presidente que tenha postura da qual é exercida não por Jair Bolsonaro, mas, sim, pelo General Hamilton Mourão, que por ora, reside no Palácio do Jaburu e despacha ali ao lado da Presidência.

Percebendo estes movimentos, o militar da reserva que foi eleito em outubro volta-se a sua turba fanática que não tão cedo arrefecerá. Não à toa, o pseudo guru dele e de sua família – o astrólogo e filósofo Olavo de Carvalho – voltou às baterias contra o general Mourão.

A classe política que estaria pronta para se consorciar ao governo eleito com mais de 58 milhões de votos, assim como fez com os demais governos anteriores, não aceita ser bucha de canhão sem ao menos fazer parte do governo nos cargos de 2º, 3º e 4º escalões. Visto que por ora os de 1º escalão foram ocupados por “técnicos” e gente de “notório saber” das áreas ministráveis. Afinal, outubro de 2.020 é logo ali.

Enquanto a líder do governo no Congresso, Joice Hasselmann (PSL-SP), considera que “lives” do presidente nas redes sociais poderão convencer a população da “necessidade” de aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 06/19 que reforma o sistema previdenciário, os profissionais do jogo político começam a se irritar com a paralisia da dança governamental junto ao Congresso.

E o Mercado

E o problema para o governo é que a turma do mercado financeiro começa a perder a paciência com a falta de habilidade de gente governista para entregar a eles o que eles querem. Começam a perceber que as promessas urdidas em campanha só serão entregues na gestão que pode vir a ser do então vice. Mas o problema disso é que ainda é muito cedo para se pensar numa substituição com a nova gestão federal iniciando o terceiro mês a frente da administração.

Enquanto isso tratativas entre Brasil e China que podem representar o aporte de quase R$ 80 bilhões em negócios no país propiciando a retomada do emprego estão congeladas até o governo chinês entender o que nós ainda não entendemos, onde o novo governo quer chegar. E o pior é que até em setores que estavam bem estabelecidos, como o agronegócio que foi crucial na eleição de Bolsonaro, sofrerão perdas graças a indecisão do novo governo federal e sua atrapalhada política internacional.

No momento em que finalizava este artigo, o presidente fazia a sua já tradicional “live”. Nela, com seu jeitão de sempre, destacou a importância do Congresso aprovar a PEC 06/19. E se justificou, mais uma vez – parece ser essa a sua tônica – acompanhado de duas altas patentes, da infeliz frase dita na manhã desta quinta, 07, de que só existe democracia no Brasil enquanto as Forças Armadas assim quiserem.
Sem mostrar números que, aliás, seria pedir muito, seu vídeo “ao vivo” nas redes sociais seria um exercício que convenceria apenas os arautos do bolsonarismo. Pois, na manhã desta sexta-feira, 08, dia dedicado às mulheres, o excelente Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) divulgou um estudo que aponta que serão elas as mais prejudicadas pela reforma do sistema previdenciário proposta.

Para aprovar a matéria serão necessárias muito mais que “lives”. Pode-se até ganhar uma eleição sem ir a debates, escolhendo a dedo em que programas midiáticos ir, escamoteando informações que logo se tornariam públicas após de eleito. Mas governar através de “lives”, isso não dá. Donald Trump que o diga. A realidade cotidiana jamais será suplantada pelas bolhas virtuais. Ainda mais um governo de um presidente que tropeça na própria língua um dia sim, outro dia idem.

Pode até fincar-se na cadeira presidencial recorrendo aos temas polêmicos e controversos que o tornaram mito para uma parcela da sociedade brasileira. Mas governar deste jeito, jamais. Há uma frase muito dita, em pleitos, que se vence eleições com posturas radicais e o auxílio de extremistas. Mas não se governa com atos radicais e sem afastar os extremistas.

O próprio presidente dá pinta que é ele um dos mais extremistas do seu governo com setores semelhantes que estão à espera de integrar a base governamental nesta imensa colcha de retalhos que envolveu o país na luta para impedir o retorno do PT ao comando do Palácio do Planalto. Com esse elemento posto joga por terra praticamente a formação de uma ampla coalizão que envolverá a participação de conservadores, liberais e centristas.

Assim o país seguirá em compasso de espera, mesmo sem poder esperar, as medidas urgentes e prementes que se fazem necessárias para a definição de um rumo que garanta a volta dos empregos e o retorno do crescimento econômico que se depender exclusivamente do tabuleiro mundial é insuficiente, obrigando que a saída do colapso social em que nos metemos só poderá ser feita com iniciativas de dentro para dentro.

O artigo foi publicado originalmente na edição 1.672, de 09 de março de 2019, do jornal O Vale da Eletrônica de Santa Rita do Sapucaí (MG).

Humberto Azevedo
Jornalista e consultor político
Humberto Azevedo é jornalista profissional, repórter free lancer, consultor político, pedagogo com especialização em docência do ensino superior, além de professor universitário, em Brasília (DF).