Postado em 29 de setembro de 2020

Caleidoscópio brasileiro

Autor(a): Humberto Azevedo

Os dias finais de setembro em Brasília sinalizam o fim do tradicional período de estiagem, comum nesta época do ano neste ambiente encravado no cerrado brasileiro e religiosamente repetida nesta época do ano entre maio e outubro. A chuva, sagrada benção que vem dos céus, já deu seu prenúncio de que os dias chuvosos, comuns entre outubro e abril, estão próximos de se iniciar. Com ela, vamos lavando as manchas de um 2.020 que ficará marcado como o ano que não aconteceu, apesar dos imensos estragos causados à saúde e a então ordem econômica que não será mais a mesma.

Neste ínterim entre o fim da estiagem e o início das chuvas, vamos vendo o governo eleito por mais de 57 milhões de brasileiros chegar ao seu 19º mês a frente da máquina pública federal sendo o que ele essencialmente é: amado por uns, odiado por outros, neutro para a maioria. Além de confuso, incoerente, popular e tacanho. Tudo isso e muito mais. Desde que assumiu o cargo mais alto do país, Bolsonaro viu sua popularidade subir. Se antes estava preso aos setores mais extremista e radical da sociedade que sonha com a volta da época da ditadura, agora o presidente se vê mais próximo dos brasileiros e brasileiras comuns.

Isso ficou bastante claro com o resultado da pesquisa Ibope, encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgada nesta quinta-feira, 24, na mesma data em que o balanço do Conselho Nacional dos Secretários estaduais e municipais de Saúde (Conass) registrou a morte de mais 831 pessoas no país, totalizando o óbito de 139.808 cidadãos brasileiros que perderam a vida por conta do avanço do novo coronavírus (covid-19). Como já escrito em artigos anteriores, o presidente brasileiro vai passando ao largo das dores e dos estragos que a nova doença vai causando a população do país, seja na área da saúde, seja nas consequências econômicas e sociais.

Bolsonaro, que inicialmente defendia o pagamento de um auxílio emergencial de R$ 200,00 para que os brasileiros mais pobres e sem proteção social conseguissem enfrentar o período da pandemia, colhe os frutos de uma articulação política que não foi sua e que permitiu o pagamento do referido benefício em R$ 600,00 por cinco meses a sua gente que estava apta para iniciar saques numa clara demonstração de desespero. Não à toa, o tal benefício que entrou para as graças do povo tal como uma benção de um santo, ou padroeiro, assim como foi perenizado aos olhos dos mais miseráveis a concessão do parco Bolsa Família no início da última década, vai ser introduzido no arcabouço de programas sociais concedido pelo governo para mitigar a pobreza.

O Renda Brasil, que duas semanas antes, Bolsonaro mandara sua equipe econômica parar os estudos após ficar insatisfeito com as propostas até então postas na mesa para substituir tapioca pelo pão, vai ser aprovado. A mecânica, em fase final de elaboração, vai vincular a cobertura do novo programa assistencial, com o valor próximo do pago pelo auxílio emergencial, a criação de um novo imposto que vai incidir nas transações realizadas pelas plataformas digitais e que hoje praticamente não pagam nada de tributos. Os novos governistas, que eram chamados pelos radicais bolsonaristas de “velha política” e que até então gostavam de ser identificados como independentes, cravam que não haverá aumento na carga de impostos e, sim, “substituição tributária”, diminuindo alíquotas para lá, aumentando outras para cá, zerando algumas acolá e criando novas incidências no já embaralhado, emaranhado e confuso sistema fiscal brasileiro inaugurado e aperfeiçoado nos idos dos “anos de chumbo” da década de 60.


** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Alfenas Hoje

Humberto Azevedo
Jornalista e consultor político
Humberto Azevedo é jornalista profissional, repórter free lancer, consultor político, pedagogo com especialização em docência do ensino superior, além de professor universitário, em Brasília (DF).

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