Postado em 22 de julho de 2020

O bolsonarismo

Autor(a): Humberto Azevedo

Pandemia à parte que já ceifou, pelos números oficiais desta última quinta-feira, 16, a vida de mais de 76,6 mil brasileiros, o Brasil e os brasileiros estão tragados neste 2.020, uma espécie de ano que não aconteceu, pelo movimento social chamado de bolsonarista que representa cerca de um terço da sociedade pátria e que, sobretudo, associado a rejeição ao PT por outro um terço da população, vai nos conduzindo dia a dia para um buraco que cada vez mais se aprofunda e vai nos metendo, assim, num atoleiro movediço fatal.

O problema do bolsonarismo não é o seu líder. Este se assemelha mais a um personagem bobalhão envolto a inúmeras denúncias de crimes e sortilégios sem fins. O bolsonarismo em questão é apenas o desenvolvimento das piores características dos brasileiros: elitista (mesmo sem posses), fundamentalista religioso, falso-moralista e racista. Este movimento podia ter outro nome se o capitão não tivesse tido êxito por algum motivo. O movimento fascista e xenófobo, em si, continuaria existindo como existiu o integralismo inaugurado por estas terras nos anos 30 do século 20.

O bolsonarismo não é apenas um movimento político. É, sobretudo, um movimento comportamental de parte dos brasileiros privilegiados e que viam com insatisfação a transformação de uma nação que aos poucos, bem aos poucos, ia diminuindo os privilégios em busca de oferecer a todos o sentimento de pertencimento a quem conseguia ser incluído. O bolsonarismo é uma resposta destes brasileiros, herdeiros da Casa Grande, que andavam acuados desde a redemocratização em 1.985 e com o avanço das conquistas da Constituição cidadã.

O bolsonarismo ganhou forma lentamente logo após o país eleger, pela primeira vez, um ex-operário migrante. Inicialmente, este movimento a qual chamamos hoje de bolsonarista era uma célula de poucos extremistas e radicais controlados pelos dois maiores partidos de centro e de direita: o PSDB e o PFL (atual DEM). Com cuidado, o antipetismo ou antilulismo era mantido em fogo brando e muito utilizado para manter aceso a chama dos então novos oposicionistas contra o novo governo federal que se instalara em 2.003.

Mas a partir das derrotas eleitorais sucessivas que o agrupamento demo-tucano sofre, o movimento começa a se avolumar e encontra terreno fértil nos equívocos, sobretudo, éticos e morais, a qual o Partido dos Trabalhadores ia colecionando no campo das negociatas políticas e nas acusações de desvio de recursos que iam crescendo cada vez mais.

Em 2.014, mesmo com um governo frágil, o petismo consegue se manter no poder, graças aos anos anteriores em que permitiu com a manutenção do Plano Real e com a retomada de um projeto de desenvolvimento nacional que tanto incluíram brasileiros a uma vida digna. Essa derrota eleitoral por uma diferença ínfima revoltou os caciques políticos de DEM e PSDB. A partir deste momento a direita brasileira desistiu do jogo democrático e caiu de cabeça num lacerdismo equivocado.

Rompendo com as tradições dos fundadores da Nova República de buscar sempre a conciliação, PSDB e DEM abraçam o "projeto" do ex-deputado e hoje presidiário Eduardo Cunha (PMDB-RJ) com objetivo de desestabilizar e sabotar o então governo até o momento em que acuado, o parlamentar fluminense dá início a um processo de impedimento contra a então presidenta sem que esta tenha cometido crime algum.

A partir daí o pacto social que balizou a elaboração da Constituição cidadã fora quebrado. De lá para cá foram-se os direitos trabalhistas e previdenciários. E a corrupção, as negociatas políticas e malversação do dinheiro público que foram utilizados para combater o então ex-governo que caiu em 2.016 se manteve firme e forte nos governos que lhe sucederam. Até porque o problema não era a corrupção e, sim, a manutenção dos privilégios dos privilegiados.


* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Alfenas Hoje

Humberto Azevedo
Jornalista e consultor político
Humberto Azevedo é jornalista profissional, repórter free lancer, consultor político, pedagogo com especialização em docência do ensino superior, além de professor universitário, em Brasília (DF).