Postado em 21 de abril de 2019

Os 100 dias de um governo confuso, ou o que será que será?

Autor: Humberto Azevedo

No último 11 de abril, o governo do presidente Jair “Messias” Bolsonaro comemorou os 100 dias em que a turma do Partido Social Liberal (PSL) chegou ao Poder Executivo por via do voto de mais de 58 milhões de brasileiros.

A data foi celebrada num ato solene no Palácio do Planalto que reuniu todos os seus ministros. Dois deles que tomaram posse junto com o presidente não apareceram mais na foto. Um porque se envolveu num episódio digno de lavação de roupa suja em público com o próprio chefe. O outro porque, segundo quem o nomeou, estava tendo problemas de gestão.

Na verdade os dois ministros – um que exercia ao lado do eleito importante cargo na estrutura da Presidência da República, foi rifado porque quis se meter num emaranhado de problemas e acabou sendo expurgado pelo filho do presidente no escândalo que, ainda, pode derrubar um terceiro ministro. Já o outro que caiu tinha o “aval” do influenciador de parte da “nova direita” e da família do presidente e que foi derrubado porque estava querendo comprar brigas com a turma do dinheiro. Coincidentemente, ambos, foram substituídos por um representante da caserna e o outro porque desagradava a caserna.

O substituto que assumiu a Secretaria-Geral da Presidência da República, general Carlos Alberto Santos Cruz, vem se tornando um importante contraponto num governo que não tem rumo. Alinhado ao vice-presidente, o também general Hamilton Mourão (PRTB) – partido presidido pelo controverso Levy Fidélix que ganhou fama em campanhas passadas ao afirmar que “a saída [do trânsito] para São Paulo é o Aerotrem”, vem pari passu galgando a confiança da população, do mercado e de setores não simpáticos a aventura do bolsonarismo que irresponsavelmente propõe a transferência da embaixada do Brasil, em Israel, na “complicada” Jerusalém e arrasta para baixo as vendas futuras de commodities agropecuários para os países vizinhos dos israelitas.

Já o substituto do “maluco” que vinha tomando de conta sem dar conta do Ministério da Educação ainda é cedo para tecer qualquer comentário. Levando em conta seu discurso de posse em que promete “mão de ferro” numa pasta essencialmente constituída por professores e gente acostumada à pluralidade, parece destoar um pouco daquilo que o cargo então ocupado por ele exige. Se na política, a flexibilidade é uma práxis que não se negocia. Entre os educadores, então, nem se fala.

Aliás, o cerne dos maiores problemas que o governo que acaba de completar 100 dias a frente da gestão federal vem colecionando decorre basicamente da falta de “jogo de cintura” que é preciso haver num processo democrático – por mais que este seja de baixíssima densidade. Isso não significa que exija-se, então, governantes de “cintura frouxa”. Como imortalizou um dos ícones de jovens dos anos 60, 70 e 80 do século passado, Ernesto “Che” Guevara, que afirmava em tom de profecia que “há que endurecer-se, mas sem jamais perder a ternura”. Lógico que citar um dos expoentes da Revolução Cubana – colocada pelos novos governistas como inimigo eterno a ser combatido, parece até provocação. Mas o faço por lembrar de um “companheiro” admirador profundo do médico e militante argentino e que, por ora, se tornou um dos soldados ferrenhos do bolsonarismo em Santa Rita do Sapucaí.

Esse problema de falta de amabilidade verificada pelo núcleo central do governo Bolsonaro, seja constante na sua família, e também nos seus apoiadores mais próximos – não à toa oriundos de quartéis policiais e que acostumados ao convívio bélico e periclitante da realidade infernal da incivilidade, replicam esse métier nas relações, negociações e intermediações com o restante da sociedade que não vive, ou pouco conhece essa realidade monstruosa e que, infelizmente, vem se tornando corriqueira para boa parcela da população que é obrigada cotidianamente a conviver com a desgraça batendo ao lado.

Não temos conhecimento se os interlocutores acostumados com os dizeres e palavreados próprios de um ambiente averso a boa educação, e ao trato cordial, saberão que a insistência deste modus operandis não permitirá o avanço das negociações. Isso sem falar na famosa “parceria” que é preciso haver entre os ocupantes do Executivo com os membros do Legislativo. Afora mencionar que a falta de requinte e sofisticação – que parece ser positiva para uns – vem travando e muito o andamento do diálogo. Uma coisa é ser simples, outra é ser simplório. O uso das canetas “bic’s” e abolição de formas de tratamento – consideradas excessivas para o senso comum – não farão o governo se comunicar mais, ou melhor. Isso não interessa, é penduricalho. Ou simplesmente bobagem!

Das 18 iniciativas que o governo anunciou no dia que completou 100 dias, apenas uma entrega o que fora prometido à banca e tenta empurrar com a barriga o que não está bom. O polêmico projeto que pretende outorgar a direção do Banco Centro do Brasil (BACEN) autonomia plena, independente das decisões do próprio governo, o que permitirá ao órgão estabelecer as regras do jogo monetário. Será que a autonomia do BACEN – sonho eldorado dos liberais – fará com que o hoje concentradíssimo mercado nas mãos de cinco bancos que fazem da nossa gente meros joguetes irá se tornar amplo, ou plural, permitindo uma enormidade de instituições financeiras atuarem em condições de igualdade na busca de seus consumidores? Ou apenas corremos o risco de tornar a quase insuportável asfixia que o mercado bancário impõe atualmente para quem tem acesso aos serviços financeiros? Tal matéria deverá ser aprovada rapidamente se o lobby do setor resolver cooptar o imenso mar de representantes que se dividem em 29 partidos dos mais variados gostos ideológicos – da direita à esquerda, e que parecem sempre dizer “amém” as deliberações mercantilistas.

No resto, as iniciativas “concretas” estabelecidas pelo governo em seu imenso abstrato não passam de revanchismo ao revogar tudo que possível que a era petista decretou. O controverso projeto que permite aos pais optarem pela educação home office para seus filhos é apenas uma demonstração do quanto o governo não tem propostas para retomar a economia e oferecer empregos a sua gente. Até porque a promessa que a reforma da Previdência será o start para a retomada do desenvolvimento já está surrada pela mesma ladainha que foi feita quando, em 2017, foi aprovada a reforma trabalhista não por acaso pelo então relator e hoje secretário especial da Previdência e do Trabalho do Ministério da Economia, o ex-deputado Rogério Marinho (PSDB-RN).

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Alfenas Hoje

Humberto Azevedo
Jornalista e consultor político
Humberto Azevedo é jornalista profissional, repórter free lancer, consultor político, pedagogo com especialização em docência do ensino superior, além de professor universitário, em Brasília (DF).