Postado em 26 de abril de 2020

A força e a superação dos brasileiros

Autor(a): Humberto Azevedo

Sexta-feira, 24 de abril, o governo já até então decadente do presidente Jair Bolsonaro (Sem Partido) viu, assim como todo o Brasil, a sua maior peça de sustentação simplesmente desmoronar. Após um dia anterior em que vários veículos de comunicação reportavam uma eventual saída do então superministro da Justiça e da Segurança Pública, o ex-juiz federal Sérgio Moro e içado por parte do eleitorado brasileiro a super herói, apresentou a sua demissão.

Moro se desligou do governo Bolsonaro atirando. Sua entrevista na despedida do cargo, às 11 horas da última sexta, serviu para praticamente fazer uma “delação premiada” contra o seu até então chefe, o presidente da República. Num pronunciamento à imprensa, afirmou que a exoneração a pedido do diretor-geral da Polícia Federal (PF), Maurício Valeixo, e publicada no Diário Oficial da União (DOU), não foi nem “a pedido” e muito menos assinada por ele como consta.

Na sequência, Moro que agora já conta com os convites de dois governadores para assumir o cargo assemelhado que ocupava na Esplanada dos Ministérios no Rio de Janeiro, do governo Wilson Witzel, ou na gestão estadual da sua terra, o Paraná, do governador Ratinho Jr., ambos do PSC, afirmou que a decisão de Bolsonaro feria o “acordo” e o “pacto” entre eles de que ele teria “carta branca” e “autonomia” total a frente do cargo.

“O grande problema é por que trocar e permitir que seja feita interferência política no âmbito da PF. O presidente me disse que queria colocar uma pessoa dele [Alexandre Ramagem, então diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), para], que ele pudesse colher informações, relatórios de inteligência. Realmente, [isso] não é papel da PF prestar esse tipo de informação”, disparou.
“[O] presidente também me informou que tinha preocupação com inquéritos em curso no Supremo Tribunal Federal (STF) em que a troca [na] Polícia Federal, também seria oportuna, por esse motivo. [Isso] também não é uma razão que justifique a substituição, [e é] até algo que gera uma grande preocupação”, falou o agora ex-ministro em tom de acusação.

O ex-ministro e ex-juiz fez ainda uma séria de outras acusações e ilações contra o presidente brasileiro. Todas já anotadas pela Procuradoria-Geral da República (PGR) pedindo que Sérgio Moro prove judicialmente. A saída de Moro do governo Bolsonaro e da forma como aconteceu levou o presidente a tentar responder à altura os ataques do ex-aliado. Mas o que se viu foi um discurso confuso, defensivo, sem pé e sem cabeça, onde não conseguiu rebater as acusações feitas contra ele por seu ex-ministro.

Na oportunidade, aquele que deveria se comportar como um chefe de Estado falou que não faz uso do seu terceiro cartão corporativo, de R$ 24 mil, a qual tem direito; que mandou desligar o aquecedor da piscina do Palácio da Alvorada que desde 2.012 é solar; que determinou “implodir” o Instituto Nacional de Metrologia (Inmetro); que a PF queria investigar o caso do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL); ao mesmo tempo em que reclamou que o órgão não apurou nada do caso do seu esfaqueador, Adélio Bispo de Oliveira; além dos problemas familiares da sua esposa e das “proezas sexuais” dos seus filhos.

“Senhores e senhoras, sabia que não seria fácil. Uma coisa é você admirar uma pessoa. A outra é conviver com ela! (...) Aquela pessoa [Moro, em 2.017] com o seu ego me ignorou. Dando descrédito a minha pessoa. Confesso [à época] que fiquei triste porque ele era um ídolo para mim e eu era apenas um humilde deputado. Não vou dizer que chorei, porque estaria mentindo, mas fiquei muito triste. (...) E o tempo passou, para minha surpresa e eu estava em Parnamirim e recebi um telefonema dele. A sua consciência tocou e ele conversou comigo sobre o episódio e eu dei por encerrado o assunto me sentido de certa forma confortado”, contou Bolsonaro.

A saída de Moro acontece oito dias após o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS), ser exonerado por ele. No entendimento do presidente o até então titular da pasta responsável por enfrentar o avanço da pandemia do novo coronavírus (covid-19), que tinha uma avaliação considerada ótima ou boa por 70% dos brasileiros, se equivocava ao recomendar que a população adotasse o isolamento social. Para ele, apenas os mais idosos e as pessoas que possuem doenças pré existentes deveriam optar pelo distanciamento social. E os demais, vida normal.

E tudo isso acontece em meio a progressão da doença que, conforme os dados oficiais desta última sexta-feira, 24, matou 3.670 mil pessoas no país. Na última sexta, 17, as mortes causadas pelo covid-19, com dados atualizados no dia anterior, 16, eram de 1.947. No intervalo de uma semana, pelos dados de notificação oficial, 1.723 brasileiros perderam a vida. Mas como esse texto é escrito no domingo, 26, onde a nova atualização feita pelo Ministério da Saúde aponta 4.205 óbitos, o aumento em dez dias no número de falecimento por contra do tal “resfriadinho”, como desdenhou o presidente, representa 2.258 mortes.

Definitivamente o ainda atual governo brasileiro mostra que a pandemia que aterrorizou e aterroriza o mundo não merece a atenção máxima e única por nossas autoridades federais. Estamos literalmente aos cuidados de Deus e das medidas adotadas por governadores e prefeitos, que em sua maioria, fazem aquilo que Brasília deveria estar fazendo. Mas não!

Por esta razão, o título deste artigo “a força e a superação dos brasileiros” se justifica. Ao fim deste período mais duro da pandemia, nós, os brasileiros, teremos enfrentado não só este período em que a maioria age com consciência e cuidado, mas também os desdobramentos tortuosos de uma crise política que agravam, ainda mais, a crise econômica que já vínhamos sendo vítimas e que jogará o país na maior recessão econômica de sua história republicana.

Os brasileiros, com força e fé (esperança) seguirão a luta. Afinal, não é para qualquer um. Só aqui temos que enfrentar um vírus que já deu mostras da sua letalidade, mas também como disse o governador de São Paulo, João Dória (PSDB), teremos que lutar contra o vírus da ignorância instalado no Palácio do Planalto que num momento em que deveria ser de união nacional, atua em favor da discórdia. Agosto de 2.020 chegará, em breve, e lá, após o denso e tenebroso inverno que se anuncia, ao contarmos o número de mortos também contaremos o tamanho do prejuízo e o quanto será necessário reerguer os negócios, os empregos e as vidas dos que sobreviverão as tragédias dos dois vírus: bolsovid-17 e covid-19.


* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Alfenas Hoje

Humberto Azevedo
Jornalista e consultor político
Humberto Azevedo é jornalista profissional, repórter free lancer, consultor político, pedagogo com especialização em docência do ensino superior, além de professor universitário, em Brasília (DF).