Postado em 13 de julho de 2020

O futebol em guerra

Autor(a): Humberto Azevedo

No dia 1º de julho o Brasil assistiu o disparo da sua grande guerra. Comumente chamado pelos próprios patrícios de "país do futebol", os brasileiros viram as novas bombas serem alçadas quando o clube tido como mais popular ter permitido uma transmissão própria para cambalear o inimigo proprietário dos direitos de exibição.

Tal bomba só foi possível ser lançada graças a um arsenal jurídico que o atual governo federal do país disponibilizou aos seus aliados na guerra "cultural" e "santa" em que tenta promover desde quando tomou posse em janeiro de 2.019. Valendo de uma medida provisória que possui força de lei por 180 dias, os dirigentes do clube dito o mais popular do Brasil se convenceram que os contratos anteriores poderiam ser quebrados.

Isso faz lembrar de uma das promessas mais singulares feita em 2.002 por um candidato que viria a ser presidente a partir de 2.003 se comprometer em respeitar todos os contratos e não promover mudanças no meio do campeonato. Tal atitude, muita criticada por segmentos à esquerda, serviu de baliza para a geração de um ambiente de confiança empresarial. Ao contrário do que acontece nestes tempos no cenário do ludopédio em que se forma a antítese de tal confiança. Empresários sabem que agora os contratos não serão respeitados.

Por que se aconteceu num setor como o do futebol, o mesmo ingrediente será aplicado nos demais setores. E para um país e, sobretudo, um governo que foi eleito em 2.018, pregando a necessidade de investimentos privados para auxiliar na retomada do desenvolvimento, tal gesto que acaba com a previsibilidade das medidas legais soa aos ouvidos dos impávidos proprietários do capital como sinal de que a regra do jogo poderá ser alterada a qualquer momento do certame.

E avaliando os motivos que levaram a edição desta medida provisória, assim como as razões que levaram os dirigentes do clube dito mais popular a fazer o que fez, vemos que o conflito entre o atual governo e as organizações Roberto Marinho, proprietária da TV Globo, que vivem às turras desde o início, é o principal motivo do imbróglio.

Desta forma, não é de se entranhar que tal medida reclamada pela emissora tenha sido publicada. Já o clube, que viu na medida a salvação da sua briga com a empresa de comunicação, queria apenas receber a mesma cota destinada aos clubes paulistas. Reivindicação não atendida para evitar que todos os contratos também pudessem ser reclamados.

E, assim, a Globo que elevava os valores dos contratos para manter afastada a concorrência, chegou no seu limite quando viu o clube dito mais popular e um dos seus, até então, canhões de audiência, fazer negócios abaixo dos valores dos seus contratos, mas que prejudicariam e muito os seus negócios. Resolveu então sair do jogo, anunciando que honraria os pagamentos de 2.020, mas que a partir de 2.021 rescindiria todos os contratos que foram firmados até o ano de 2.024 no âmbito do campeonato estadual do Rio de Janeiro.

Esta foi a resposta da TV Globo aos tiros disparados pelos dirigentes flamenguistas e devidamente municiados pelos ocupantes do atual governo federal. E aí o Flamengo que se via em voo solo numa cruzada contra a emissora nascida em 1.965 pelo regime militar que se implantara no país um ano antes, viu que seus tiros afetariam de maneira mais profunda os seus co-irmãos de Federação que tinham nos contratos assinados com a Globo uma das parcas receitas que iam evitando o desmoronamento de suas instituições.

E para tornar a situação ainda mais digna de um filme hollywoodiano de faroeste, o Vasco - tradicional rival do Flamengo - que atravessa uma de suas piores crises financeiras há décadas, resolveu imitar o co-irmão poderoso na estratégia de transmitir seu jogo desrespeitando os seus contratos firmados e parecendo se esquecer que já recebeu antecipadamente parte das cotas a que teria direito pelo campeonato de 2.021 e que não terá mais. E a guerra no futebol brasileiro só está começando.


* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Alfenas Hoje

Humberto Azevedo
Jornalista e consultor político
Humberto Azevedo é jornalista profissional, repórter free lancer, consultor político, pedagogo com especialização em docência do ensino superior, além de professor universitário, em Brasília (DF).