Postado em 7 de maio de 2020

O vírus e o vírus

Autor(a): Humberto Azevedo

No último domingo, 26 de abril, o coronavírus já tinha sido a causa mortis de 4.205 falecimentos de brasileiros que não resistiram a luta contra o inimigo invisível a olho nu que nos ameaça. Num intervalo de uma semana, com dados oficiais do Ministério da Saúde do governo brasileiro e divulgados nesta segunda-feira, 4 de maio, os óbitos causados pela doença que já infectou, até o momento, mais de 3,5 milhões de pessoas em todo o mundo, alcançaram no país o triste registro de 7.321.

A tal “gripezinha” ceifou a vida, num intervalo de oito dias, de 3.116 brasileiros. O novo coronavírus (covid-19) não tem ideologia. Ataca a todos indiscriminadamente. Seja no Norte do país, onde cidades como Manaus e Belém entraram em colapso no atendimento médico-hospitalar e no sistema funerário, como nas cidades mais desenvolvidas. Para evitar para evitar que o mesmo que aconteceu aos vizinhos manauaras e belenenses se repita, São Luís, capital do Maranhão, no Nordeste brasileiro, teve que decretar fechamento total nas atividades corriqueiras e cotidianas da população.

A doença que progride em escala assustadora no país, apesar dos últimos dois dias os dados oficiais indicarem que a contabilização das mortes diárias caiu de mais de 400 para um pouco mais de 200, vai encontrando nos diversos climas do país um elemento que é fundamental para o seu sucesso: a aglomeração de pessoas e o vai e vem de gente causado, sobretudo, por quem deveria a ser o primeiro a dar o exemplo do contrário. O covid-19, assim, agradece e muito o seu parceiro que tanto lhe ajuda em acometer milhares de brasileiros. Até o momento em que este texto era escrito, o Brasil já possuía em seus registros mais de 105 mil infectados.

Quando comparamos os nossos dados e registros com os demais países do globo, somos a nona nação com mais contaminados pela doença letal. Mas no número de óbitos pelo planeta, somos a sétima nação mais afetada. Atrás apenas de Estados Unidos, Itália, Reino Unido, Espanha, França e Bélgica. As projeções que cientistas e pesquisadores de todo mundo vem fazendo indicam que infelizmente deveremos ultrapassar a Bélgica em dias e até o final deste mês nos tornarmos o novo epicentro do tal “resfriadinho”, nos cabendo a triste marca de país com o maior número de contaminados e se consolidando como provável a segunda nação com mais mortes registradas.

E isso ocorre por que o vírus que nos ataca encontrou aqui outros colegas virais como o da ignorância e o da intolerância que o auxiliam em sua propulsão junto ao povo brasileiro. Içado pelo autoritarismo latente de sua personalidade, o atual ocupante do Palácio da Alvorada e do Planalto vê com a chegada do novo coronavírus aos trópicos a oportunidade de lançar sobre o país a sua aventura antidemocrática e totalitária para impor a todos a sua pauta por meios de decretos ditatoriais sem a análise ou rejeição por parte do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal.

Tudo indica que após os efeitos imediatos e danosos que a pandemia causará à economia e à saúde do país, o vírus da ignorância e da intolerância será devidamente deposto. Essa é a aposta. Uma aposta. Mas como o vírus da ignorância e da intolerância é traiçoeiro, podemos chegar em agosto com a quebra definitiva do regime constitucional de 1.988. A oitava Constituição federal do país nunca esteve tão ameaçada como está agora. Os momentos que antecederam a todas as Constituições que já foram promulgadas no Brasil viveram situações de gravíssimas crises institucionais. Foi assim em 1.824, 1.891, 1.934, 1.937, 1.946, 1.967, 1.969 e em 1.988. O mesmo pode está se repetindo, agora, em 2.020.

Finalizando a leitura das 521 páginas de “Brasil: uma biografia”, das historiadoras Heloísa Starling e Lília Schwarcz, o temor pela possibilidade da repetição de fatos históricos nestes momentos contemporâneos, assusta. Não mais do que a frieza de se saber que a história acontece com tragédia e se repete como farsa. Mas, para evitar isso, ou todos os verdadeiramente democratas, sejam eles de direita, ou esquerda, se unem, ou a democracia brasileira, mais uma vez, sairá de cena e entrará em marcha o atropelo às leis, a perseguição política, os decretos autoritários. Pode estar em gestação uma nona Constituição do país como a fabricada em 1.969. Finalizo este meu texto com um trecho do referido livro constante no capítulo 17 intitulado: “no fio da navalha, ditadura, oposição e resistência” em que se ressalta os acontecimentos que nos levaram a 1º de abril de 1.964 e que entrou para a história como do dia anterior.

“Até hoje os historiadores debatem as razões que permitiram aos golpistas alcançar uma vitória fácil. É certo que faltou comando a Jango para resistir. Contudo, entre as esquerdas e junto aos setores que o apoiavam, ninguém tomou a iniciativa de assumir a liderança e enfrentar o golpe - nem o [clandestino] Partido Comunista, ou a CGT [Comando Geral dos Trabalhadores], nem as Ligas Camponesas, nem [Leonel de Moura] Brizola. É provável que todos eles, inclusive, Goulart, tenham feito o mesmo cálculo antes de recuar: a intervenção militar, em 1.964, repetiria a lógica de 1.945 [deposição do então ditador Getúlio Vargas], 1.954 [suicídio do então presidente eleito democraticamente, Getúlio Vargas], 1.955 [tentativa de evitar que o eleito para a Presidência da República, Juscelino Kubitschek, tomasse posse] e 1.961 [renúncia de Jânio Quadros e tentativa de evitar a posse do vice-presidente eleito, João Goulart]. [Quando] as Forças Armadas se projetariam no ambiente político no duplo papel de moderador e protagonista para, em seguida, convocar eleições, devolver o poder aos civis e se recolher aos quartéis. E talvez Jango se imaginasse em posição análoga à de Vargas, em 1.945: também ele recuaria para São Borja (RS), aguardaria os acontecimentos e retornaria a vida pública, a partir das eleições de 1.965. (...) Ninguém, nem [seus adversários como] Magalhães Pinto [então governador de Minas Gerais], Carlos Lacerda [então governador do extinto estado da Guanabara] ou Ademar de Barros [então governador de São Paulo], imaginava algo diferente de uma curta intervenção militar. Nem mesmo Juscelino Kubitschek - senador pelo estado de Goiás desde 1.962. JK, com seu jeito característico de fazer política, declarou não ser a favor do golpe, mas, sublinhou, tampouco que apoiaria Jango. (...) Ninguém imaginava outra coisa além das eleições de 1.965. Mas todos estavam enganados. Uma facção dos golpistas tinha agenda própria, o governo dos militares iria durar 21 anos, e o Brasil acabava de ingressar numa longa ditadura.”


* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Alfenas Hoje

Humberto Azevedo
Jornalista e consultor político
Humberto Azevedo é jornalista profissional, repórter free lancer, consultor político, pedagogo com especialização em docência do ensino superior, além de professor universitário, em Brasília (DF).