Postado em 19 de fevereiro de 2019

A disputa entre conservadores e liberais

Autor: Humberto Azevedo

A 7ª semana do ano se encerra com o novo governo instalado vivendo alguns dramas. A crise protagonizada, nesta semana, entre o ministro Gustavo Bebianno, secretário-geral da Presidência da República, com o terceiro filho do presidente do Brasil, o vereador carioca Carlos Bolsonaro, balançou as estruturas da nova gestão federal que mal começa a funcionar.

Chamado de mentiroso pelo filho do capitão-presidente, o ministro Bebianno se transformou num enorme problema para o Planalto quando o pai, seu chefe, o presidente Jair Messias Bolsonaro (PSL) endossou as palavras do filho no ambiente virtual na noite da última quarta-feira, 13.

Então presidente do PSL durante as eleições, Bebianno acusado de repassar a uma candidata que seria uma espécie de “laranja” do partido, em Pernambuco, a quantia de R$ 400 mil dos fundos partidários ao qual a legenda recebeu da Justiça Eleitoral, o ministro afirmara que já havia conversado sobre este assunto com o presidente, o que foi negado pela família Bolsonaro.

Após isso, o caso entornou e virou um problemão para o governo que se elegeu com a promessa de oferecer ao país transparência e o combate à corrupção. Tanto é que o assunto deixou de ser o mais discutido quando no final da tarde desta quinta-feira, 14, quando o secretário especial da Previdência e do Trabalho, o ex-deputado Rogério Marinho (PSDB-RN) que relatou a reforma trabalhista do ex-presidente Michel Temer (MDB), anunciou que o texto final da reforma previdenciária já estava fechado com o presidente “batendo o martelo”.

Na oportunidade, a turma do mercado que foi fundamental para a eleição de Bolsonaro e que já se mostrava incomodada – com a queda dos índices na Bolsa de Valores de SP ao longo do dia – com a sucessão de crises internas provocadas pelo novo governo que nem completou 60 dias, deu uma respirada e voltou a ficar alvissareiro com o enfim anúncio de que a proposta para reformar o sistema previdenciário estava pronta. O anúncio detalhado do projeto deve acontecer na próxima quarta-feira, 20, numa reunião com todos os governadores do país.

Ficou claro que para tentar esvaziar o debate em torno do caso envolvendo o ministro Bebianno, o novo governo sacou-lhe a arma disponível no momento para acalmar a turma da bufunfa que tanto quer a realização desta reforma para a continuação – sem problemas – do pagamento dos juros àqueles que investem nos títulos da dívida pública do governo federal.

O problema é que para esfriar uma crise gerada por seu próprio filho contra um subalterno, considerado parceiro, o novo governo começa a se distanciar de alguns dos seus segmentos sociais que lhe ajudaram a vencer o pleito de outubro de 2018. Pois, o anúncio da proposta da reforma da previdência agrada aos liberais, mas nem tanto aos conservadores e, sobretudo, ao núcleo mais obscuro deste segmento. A estes o tema caro é a proposta anunciada na última semana pelo ex-juiz federal e atual ministro da Justiça, Sérgio Moro.

Conciliar os interesses de liberais e dos conservadores, que possuem visões de mundo bem distintas no campo dos costumes, é tarefa quase impossível. A turma liberal que se elegeu para a 56ª Legislatura do Congresso Nacional não quer se queimar junto ao seu público aprovando medidas, consideradas por estes segmentos como perda dos direitos individuais. Querem o cumprimento da pauta econômica que foi vendida nas eleições. Já os conservadores, pelo contrário, não farão o menor esforço para que temas espinhosos como a reforma da previdência e a ideia de menos Estado entrem em vigor. A estes interessam os temas controversos como, por exemplo, o excludente de ilicitude e, não, mexer na aposentadoria dos seus eleitores.

(*) Artigo publicado originalmente na edição de 1.169 do jornal O Vale da Eletrônica de Santa Rita do Sapucaí (MG) de 16 de fevereiro de 2019

Humberto Azevedo
Jornalista e consultor político
Humberto Azevedo é jornalista profissional, repórter free lancer, consultor político, pedagogo com especialização em docência do ensino superior, além de professor universitário, em Brasília (DF).