Postado em 18 de março de 2020

Coronavírus, Brasil!

Autor(a): Humberto Azevedo

A semana que se encerra era prometida como o auge da crise política e institucional que envolve o governo do presidente Jair Bolsonaro com o parlamento de aliados não tão aliados assim controlado pelo “centrão” de Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), Arthur Lira (PP-AL), Davi Alcolumbre (DEM-AP), Domingos Neto (PSD-CE) e Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Mas não foi bem assim que a história se sucedeu. Não porque a crise política e institucional que se instalou não cumprira o seu roteiro que põe de vez em pé de guerra os personagens saídos de algum romance do escritor Júlio Cortázar. Pelo contrário, não faltaram elementos para o acirrar os ânimos das autoridades executivas e legislativas.

O que houve mesmo foi que a realidade, querendo ou não, bateu à porta e nos apresentou o que boa parte do mundo já vinha experimentando a semanas: o novo coronavírus, já não mais um surto, e, agora, sim, uma pandemia fecha assombrosamente nos dados de quinta-feira, 12, com 136 casos confirmados. E a expectativa de que quando este artigo chegar às mãos dos leitores os números se ampliem de forma exponencial.

Não à toa que o que parecia até então exagero por parte da mídia, conforme palavras do excelentíssimo presidente, acabou se transformando num dos casos suspeitos da doença gripal advinda da China. Fazendo com que seu funcionário responsável pela comunicação social esteja de quarentena depois de se contaminado pelas suas andanças pelo mundo afora.

Assim, até a derrota do governo na última quarta-feira, 11, quando 302 deputados e 45 senadores votaram pela derrubada do veto presidencial ao Projeto de Lei (PL) 55/96 que amplia o valor disponibilizado pelo governo aos cadastrados no Benefício de Prestação Continuada (BPC) foi suficiente para fazer frente ao colosso de notícias sobre o novo coronavírus chegando e aportando de vez em território brasileiro.

Nem mesmo o rompante, para variar, do ministro da Economia – Paulo Guedes – afirmando que vai judicializar a questão da matéria aprovada pelo Congresso foi também suficiente para tirar o coronavírus de pauta. Aliás, que virou ótimo pretexto e justificativa para a continuidade da estagnação econômica. Nem mesmo a criatividade do ministro em separar o Produto Interno Bruto (PIB) do setor público daquele obtido pelo setor privado foi páreo para concorrer com o coronavírus.

Um dos poucos ministros lúcidos do atual governo, se não for o único, o titular da pasta da Saúde – deputado licenciado Henrique Mandetta (DEM-MS) – tenta se esquivar do jeito esquizofrênico com que a gestão federal trata das coisas. Falando sério, apresentando números, ele sabe e confessou em audiência aos parlamentares que a pandemia afetará o país por 20 semanas. Ou até o final do mês de julho.

Obviamente que seu discurso também serviu para apontar que o orçamento do seu ministério, apesar de robusto e um dos maiores, não é suficiente para dar vazão ao controle da infestação que se avizinha. Só aí conseguiu a liberação do ministro que detêm a chave do cofre de R$ 5 bilhões adicionais que lhe serão ofertados para as ações de enfrentamento do coronavírus.

Enquanto isso, em meio a tragédia que pode representar a doença globalizante tanto na área da saúde, quanto nas consequências econômicas, os apoiadores do presidente que marcaram para este domingo, 15, um protesto “contra os políticos de sempre” e a favor do governo ouviram um apelo do próprio Bolsonaro para não mais ir às ruas devido que aglomerações poderia agravar, ainda, mais a situação brasileira no combate ao coronavírus. E tudo isso ele fez de máscara já que estava suspeito de ter contraído o vírus.

Mas, apesar das lideranças dos movimentos bolsonaristas afirmarem que vão adiar a manifestação, o pedido não caiu muito bem não nas redes sociais do presidente. Muitos desconsiderando o que falara e pedira o presidente afirmavam que estariam, sim, nas ruas para mostrar que “os piores vírus do Brasil estão no Congresso e no STF [Supremo Tribunal Federal]”, como escreveu um apoiador do presidente.

E olha que no pedido, Bolsonaro pedira que a população que lhe apoia preservasse às instituições republicanas, afirmando que “ninguém pode atacar o parlamento, o Executivo ou o Judiciário. As instituições, em si, têm que ser preservadas”. Mas os ouvidos moucos dos bolsonaristas pareciam não prestar muita atenção para o que falara o “mito messias”.


* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Alfenas Hoje

Humberto Azevedo
Jornalista e consultor político
Humberto Azevedo é jornalista profissional, repórter free lancer, consultor político, pedagogo com especialização em docência do ensino superior, além de professor universitário, em Brasília (DF).