Postado em 18 de março de 2020

Os avisos de Maia

Autor(a): Humberto Azevedo

O ano de 2.020 começou na política brasileira no dia 28 de dezembro de 2.019. Foi nesta data em que o presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), materializou os seus vários recados ao inquilino da Presidência da República. Foi nesta data em que Maia, tido por alguns como o principal avalizador do meio político em 2.019, publicou um artigo seu no jornal “Folha de S. Paulo”.

Os avisos de Maia ao ocupante dos Palácios da Alvorada e do Planalto parcialmente já foram tratados aqui por este colunista na última edição. Mas os encaminhamentos foram tão claros que é preciso abordá-los novamente num novo texto. Maia não esconde de ninguém o seu desejo em vir a ocupar o local hoje ocupado pelo presidente Jair Bolsonaro. Inclusive, até tentou ocupá-lo quando o ocupante era o ex-presidente Michel Temer. Tentativa em vão e frustrada.

Afinal, enfrentar Temer nos bastidores do Congresso – sobretudo nos corredores da Câmara – era uma missão um tanto quanto complicada. Ainda mais para Maia que ainda era visto como um aprendiz se comparado pela expertise daquele que galgou a cadeira a tomando de sua companheira de chapa que fez de tudo para garantir a antipatia da classe política.

Mas a realidade em 2.020 é completamente diferente de alguns anos atrás. Atualmente, Maia, com a aposentadoria de Temer, herdou para si todo o controle que o emedebista exercia sobre a maioria do parlamento brasileiro. Hoje, talvez, apenas três jogadores podem ameaçá-lo de seu reinado naquela Casa. Um é o líder da maioria, Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), e os outros dois Arthur Lira (PP-AL) e Wellington Roberto (PL-PB), ambos líderes de seus respectivos partidos. Mas nenhum deles tem o interesse de conspirar contra Maia que controla com maestria os fluxos de, pelo menos, seis legendas ali dentro.

O ano de 2.019 terminou com todos no Poder Legislativo sabendo que uma retirada forçosa do presidente da República estaria fora de cogitação dado a sustentação que cerca de um terço da sociedade brasileira ainda lhe dá e garante. Entretanto, algumas das várias bizarrices praticadas pelo comandante em plena função de chefe de Estado derraparam sua confiança na parte da sociedade brasileira que lhe apoia. Até porque, agora com um ano à frente do Poder Executivo, Bolsonaro deixou de ser exótico para se tornar corriqueiro. E o cotidiano cansa. E se não souber mantê-lo, ele mata.

Visto isso, a retomada da economia em patamares bem distantes do quadro alcançado no final da última década, com os ventos liberais jogando para escanteio as seguranças que milhares de famílias se assistiam do Estado dará a sensação, enfim, para a grande maioria da população de uma inebriante viagem cansativa que parece nunca terminar. Esse é o cenário perfeito para as conspirações. E é aí que Maia porá em marcha uma nova tentativa de chegar ao Planalto por meio de um trajeto alternativo que muito provavelmente lhe renderá sucesso imediato e aplausos eleitorais.

Para quem dúvida, basta ler com atenção os dizeres escritos por Maia em dezembro último: “o governo falhou no desempenho do seu papel de uso da força para coagir os agressores do patrimônio mundial que são a Amazônia e o Pantanal – e também para proteger as nações e povos indígenas que compartilham conosco o território nacional”. Se acha pouco, então, o que dirá disto: “nós, congressistas, estabelecemos conexão direta com entidades e organismos internacionais cujo mister é justamente atuar fiscalizando e denunciando as agressões com o fim de reprimir os agressores. Usamos instrumentos legitimados pela diplomacia e pelas relações econômicas”, completou o presidente da Câmara. Aviso mais claro que isso, impossível.

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Alfenas Hoje

Humberto Azevedo
Jornalista e consultor político
Humberto Azevedo é jornalista profissional, repórter free lancer, consultor político, pedagogo com especialização em docência do ensino superior, além de professor universitário, em Brasília (DF).