Postado em sábado, 18 de julho de 2026 às 12:12

Estudo mapeia como o ‘pixo’ e o graffiti disputam a visibilidade nas ruas de Alfenas

Pesquisa da Unifal revela que pixações se concentram no centro como forma de protesto, enquanto o graffiti ganha força nos bairros da periferia.


 Da Redação

Quem caminha pelo centro de Alfenas já deve ter reparado na quantidade de assinaturas e escritas de formatos únicos espalhadas por muros, pontos de ônibus e fachadas de prédios. Longe de ser um acaso, a distribuição dessas marcas segue uma lógica urbana bem definida: a busca por visibilidade e o protesto contra a forma como a cidade é organizada.

Essa é uma das principais conclusões de um estudo realizado por pesquisadores da Unifal, que mapeou as manifestações visuais urbanas no município. O trabalho, liderado pela pesquisadora Brenda Letícia de Paula Muniz com orientação do professor Evânio dos Santos Branquinho, foi publicado recentemente em um artigo na revista científica Caderno de Geografia, da PUC Minas.

A ideia de investigar o tema surgiu do próprio cotidiano de Brenda, que passava pelas inscrições todos os dias no trajeto até a faculdade. Ao todo, o levantamento de campo registrou 49 pixações concentradas nas regiões central e semicentral da cidade.

Centro vira vitrine para o ´pixo´

De acordo com a pesquisa, o centro de Alfenas é o principal alvo dos pixadores justamente por reunir o maior fluxo de pedestres e veículos, além de concentrar agências bancárias, lojas, bares e os antigos casarões históricos. Para os autores, o "pixo" (grafado com "x" para diferenciar a prática cultural do vandalismo comum) funciona como uma linguagem de contestação. 

Grapixo em frente à sede da Unifal (Foto: Arquivo/Pesquisa)



"Essas zonas concentram esse tipo de escrita pois configuram-se como uma linguagem de contestação dos espaços de poder e da concentração de capital", explica Brenda.

Como a dinâmica da região central é muito voltada para o consumo de mercadorias, as intervenções nos muros geram um conflito com o poder público e com a sociedade, que costumam reduzir o movimento ao vandalismo. No entanto, o estudo aponta que os praticantes usam a intensa circulação desses locais para ampliar o alcance de suas mensagens e obter reconhecimento dentro do seu próprio grupo.

Graffiti e o movimento hip-hop nos bairros

Enquanto a pixação ocupa as áreas comerciais e mais ricas, o graffiti faz o caminho inverso. A pesquisa identificou que os desenhos coloridos aparecem com muito mais frequência em bairros periféricos, como o Pinheirinho e o Santa Clara. 

Graffiti hip-hop no bairro Pinheirinho (Foto: Arquivo/Pesquisa)



Nessas localidades, o graffiti funciona como um braço de um movimento cultural maior. É nas periferias que acontecem os encontros de hip-hop organizados de forma independente pela própria comunidade. Os eventos reúnem manifestações como a dança (break), DJs, batalhas de rima e artes visuais. Segundo o estudo, o graffiti nesses locais ajuda a fortalecer os laços comunitários e transforma positivamente a paisagem dos bairros.

Rede regional e união local

Diferente do que ocorre em grandes metrópoles como São Paulo ou Rio de Janeiro, onde grupos de pixadores frequentemente disputam territórios e vivem em clima de rivalidade, a realidade de Alfenas é marcada pela proximidade. Por ser uma cidade de médio porte e com um movimento relativamente recente, a maioria dos praticantes se conhece e mantém uma relação de amizade.

Além disso, Alfenas serve como um nó central para uma rede que interliga praticantes de várias outras cidades vizinhas do Sul de Minas, como Poços de Caldas, Varginha, Pouso Alegre, Itajubá, Guaranésia, Monte Belo e Carmo do Rio Claro. Essa conexão regional é alimentada principalmente pelas viagens e trocas culturais que ocorrem durante os eventos de rua.

O mapeamento detalhado começou há alguns anos como um projeto de iniciação científica e evoluiu para o trabalho de conclusão de curso de Brenda. Agora, a pesquisadora continua aprofundando a análise da dinâmica urbana de Alfenas em seu projeto de mestrado, que deve trazer novos desdobramentos sobre como os moradores se expressam através dos muros da cidade.

 



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