Postado em quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Sim, fotografias com cores "falsas" também são importantes para a ciência

Na verdade, muitos cientistas mais acadêmicos, de fato, não veem esse tipo de trabalho com bons olhos.


 Quando vemos fotos de objetos cósmicos como galáxias, estrelas, planetas e nebulosas, como as imagens pra lá de incríveis selecionadas semanalmente pela NASA no site Astronomy Picture of the Day (e que publicamos aqui no Canaltech aos sábados), muitas vezes tratam-se de imagens recheada de pós-processamento. E talvez alguns se sintam enganados por isso. “Quer dizer que essas cores na nebulosa são falsas?”, você poderia perguntar. Um cientista acostumado a lidar com os dados, digamos, “crus”, também poderia questionar o valor dessas imagens. Afinal, isso é ciência “de verdade”?

Na verdade, muitos cientistas mais acadêmicos, de fato, não veem esse tipo de trabalho com bons olhos. É que, para eles, uma imagem com pós-processamento pode dar uma ideia errônea sobre a aparência real dos objetos espaciais. Talvez eles acreditem que o astrofotógrafo, ao fazer um tratamento de suas imagens com softwares, esteja mais interessado em “likes” nas redes sociais do que na divulgação científica de fato.

Mas esse é apenas um ponto de vista - um tanto enviesado, por sinal. A verdade é que as imagens desse tipo têm um grande papel a desempenhar, por mais que tenham passado por alterações de contraste, equilíbrio de cores, aplicação de filtros e balanceamento de branco. Mesmo nessas imagens, normalmente não há nada modificado, alterado, falsificado. Não são “fake”, ao contrário do que possam afirmar aqueles que preferem estudar o espaço com base apenas em dados brutos (ou seja, não tratados).



Esta imagem da Nebulosa Laguna apresenta duas cores detectadas pelo Telescópio Espacial Hubble que foram então processadas por Diego Gravinese (Imagem: NASA/ESA/Hubble/Diego Gravinese)


Na astrofotografia, principalmente na amadora, podemos encontrar o hábito de se aplicar efeitos e filtros nas imagens com frequência. E saiba que há muita utilidade nisso para a divulgação científica. É que, muitas vezes, só com esse tipo de edição via software podemos ver detalhes da imagem que, de outra forma, não seriam visíveis.

No entanto, alguns cientistas, e até mesmo professores universitários e pesquisadores acadêmicos, podem ter algum preconceito com essa prática. Em um artigo publicado no Sky & Telescope, por exemplo, o astrofotógrafo amador Richard S. Wright Jr conta que um de seus primeiros mentores usava o termo “pessoas das fotos bonitas” para descrever, com desdém, aqueles que usam pós-processamento de imagens, como se fossem vigaristas. Em outra ocasião, Wright ouviu em uma reunião que essas pessoas não “não estavam fazendo nada para contribuir para a ciência real”.

Mas não é bem assim, ao menos na visão de Wright e muitos de seus colegas. Embora amador, o astrofotógrafo está neste ramo desde a infância, e há muito com o que contribuir com a ciência apenas praticando o hobby, por paixão. Esse trabalho é incrível e pode ajudar muitas pessoas a conhecer melhor o nosso universo e se interessar cada vez mais pela astronomia, e não só pela beleza das imagens, mas pela riqueza de detalhes que o pró-processamento pode oferecer.

 

Usando o Photoshop, Andrew McCarthy combinou 50 mil imagens individuais para gerar esta foto incrível da Lua (Foto: Andrew McCarthy)

 

Mesmo que as imagens não mostrem as cores como elas realmente são, os astrofotógrafos que fazem pós-processamento sabem que não podem desrespeitar a regra dos dados qualitativos - ou seja, as informações que descrevem o objeto de modo subjetivo, possibilitando uma observação que possa ser usada nos dados quantitativos. E a regra sobre a coleta de dados qualitativos é que você não pode falsificar os dados.


O que isso significa no mundo do pós-processamento de imagens? Significa que você não pode "clonar" estrelas em uma foto para preencher uma área vazia, por exemplo, nem juntar duas nebulosas para gerar uma imagem mais chamativa. Isso seria uma montagem e, embora seja bonito para ilustrar uma matéria ou usar como papel de parede no seu desktop, não serve para a divulgação científica.

No entanto, você pode tranquilamente atribuir cores diferentes a comprimentos de onda específicos gravados em uma imagem - por exemplo, vermelho para uma imagem em infravermelho e azul para uma em ultravioleta, e sobrepor ambas. Pode aplicar filtros, diminuir ruídos, aumentar a nitidez e o contraste. Nenhuma dessas coisas são dados falsos, porque apenas mostra de modo diferente um objeto real. As características sobre ele, que importam para a ciência, permanecem intactas mesmo com esses ajustes. Isso é feito o tempo todo, na verdade, para descobrir sutilezas que não seriam aparentes de outra forma.

 

Imagem da Nebulosa do Cananguejo, capturada pelo Hubble em 2005 e processada pela astrônoma Melina Thévenot, que descobriu um rastro de asteroides no cenário (Imagem: ESA/Hubble & NASA/M. Thévenot - @AstroMelina)


Assim, se você viu uma belíssima foto da Via Láctea, resultado do empilhamento de várias imagens obtidas em longa exposição, extremamente saturada e cheia de pós-processamento, saiba que provavelmente você não veria muitos daqueles detalhes de outro modo. Por exemplo, uma imagem particular pode revelar uma estrela que você não observou em outras fotografias, e com isso aprenderá um pouco mais. Aliás, novas descobertas podem ser feitas dessa forma.

No mundo da ciência, sempre haverá pessoas que estão ali “apenas” por hobby. Mas isso não quer dizer que elas não terão nada a oferecer. Isso também vale para astrofotógrafos, que fazem um ótimo trabalho oferecendo milhares de registros fascinantes do universo ao redor do mundo. Mesmo que nenhuma nova descoberta seja feita, o método científico depende da repetição na experiência da observação, como bem lembra Wright. Então, podemos, sim, pensar nisso como uma contribuição para garantir que os resultados da ciência bruta e observacional não tenham mudado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: Yahoo



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