Postado em terça-feira, 6 de março de 2018 às 08:40

O maior desatino de Trump

 Foi o maior disparate do governo Donald Trump." Assim o sóbrio Wall Street Journal classificou a imposição de tarifas ao aço e alumínio importados pelos Estados Unidos, anunciada na semana passada.

“Guerras comerciais são boas e fáceis de vencer”, disse Trump na sexta de manhã em seu meio de comunicação favorito, o Twitter. “Temos déficits comerciais grandes com México e Canadá. (…) Tarifas sobre aço e alumínio só serão canceladas se um Nafta novo e justo for assinado”, tuitou ele ontem.

Está aí expressa, de modo explícito, sem nenhuma margem para interpretações, a visão do presidente da nação mais poderosa do planeta a respeito do comércio internacional. Depois de impôr tarifas a paineis solares e máquinas de lavar importados da China e da Coreia do Sul, Trump dá um passo inequívoco na agenda protecionista que, desde os anos 1980, é talvez sua única posição política consistente.

A medida é condenável de dois ângulos: tanto no caso específico das indústrias que Trump tenta proteger quanto na visão geral a respeito do comércio global. Ainda não está clara a forma como será posta em prática, nem se haverá exceções às tarifas anunciadas de 25% (aço) e 10% (alumínio). Já configura, mesmo assim, um retrocesso mercantilista, oposto ao ideário liberal de abertura de mercados globais, liderado pelos EUA nas últimas décadas.

Não há dúvida, diante do que disseram afetados como Canadá, União Europeia ou Brasil, de que haverá retaliação. As consequências são incertas, mas um ponto é certo: se for desencadeada mesmo uma guerra comercial, não será bom para ninguém, sobretudo os Estados Unidos.

Para entender as consequências, basta analisar o que já aconteceu no próprio mercado de aço americano. Em 5 de março de 2002, o último presidente republicano, diante da decadência da indústria americana, impôs tarifas de 30% às importações de aço. O argumento foi o mesmo usado por todos os protecionistas: salvar empregos.

Ao contrário de Trump, George W. Bush abriu exceções em suas tarifas para os parceiros do Nafta (Canadá e México) e países como Argentina, Tailândia e Turquia (o total chegou a 75). Mesmo assim, a reação global foi imediata. A União Europeia anunciou medidas retaliatórias contra a importação de carros e laranjas – agora a UE ameaça retaliar contra produtos como bourbon, motocicletas Harley Davidson e jeans.

Um grupo que reuniu UE, Brasil, Japão, Coreia, China, Taiwan prestou queixa conjunta à então incipiente Organização Mundial do Comércio (OMC). Depois de 20 meses, em 11 de novembro de 2003, a OMC soltou sua sentença: condenou as tarifas e autorizou sanções de mais de US$ 2 bilhões. Diante disso e da própria reação interna, Bush voltou atrás e cancelou as tarifas em 4 de dezembro.

Um relatório da Comissão Internacional de Comércio, encomendado pelo Congresso, avaliou o impacto da medida para produtores e consumidores de aço. No PIB, ele foi pequeno: queda de US$ 30,4 milhões. Para as empresas, porém, os lucros caíram US$ 294,3 milhões. Para os funcionários, a remuneração total encolheu US$ 386 milhões. A diferença no PIB se deve a US$ 650 milhões arrecadados com a tarifa.

Em um ano, houve queda de 11% nas exportações de produtos derivados do aço. A própria indústria do aço sofreu com as tarifas. Nos três maiores estados produtores nos Estados Unidos – Pensilvânia, Ohio e Michigan –, o emprego no setor diminuiu. Em Ohio, os empregados caíram de 14.700 para 13.800 durante a vigência da tarifa. Na Pensilvânia, de 16.700 para 14.000. Em Indiana, de 22.600 para 20.500. Apenas em Gary, cidade de Indiana onde fica a maior siderúrgica americana, de 21.500 para 18.300.

As tarifas de Bush foram incapazes de conter a queda no emprego da indústria siderúrgica nesses três estados. Em dezembro passado, havia apenas 14.500 empregados em Gary e 18.100 em todo o estado – eram, respectivamente, 30.900 e 35.700 em 1990. Na Pensilvânia, 10.600 – ante 31.800. Em Ohio, 7.400 – ante 34.100. (Os dados são do Federal Reserve de St. Louis, com ajuste sazonal.)

Apesar da queda no emprego, a indústria do aço não está em crise nos Estados Unidos. Forçada pela competição, ela tem sido obrigada a aumentar a produtividade. A produção cresceu 3,4% em 2017, para 81,6 milhões de toneladas – o crescimento global foi de 3%. Apesar da produção local, os Estados Unidos precisaram importar outras 34,5 milhões de toneladas no ano passado.

O aço importado representou 22,2% do total em dezembro e 26,8% ao longo do ano – em 2015, beirava os 35%. Veio dos países que poderão ser, em tese, os mais afetados pelas tarifas de Trump: Canadá (16%), Brasil (14%), Coreia do Sul (10%), México (9%), Turquia (6%) e Japão (5%). Para impô-las, Trump lançou mão de um dispositivo excepcional da OMC que permite erguer barreiras tarifárias em caso de “segurança nacional”.

Enquanto as tarifas impostas por Bush exigiram um longo processo até as retaliações, esse dispositivo incentiva reação imediata. Como Trump já manifestou desprezo pelas organizações internacionais, há desconfiança de que venha aceitar uma decisão da OMC. O pretexto da “segurança nacional” poderá ser então usado por países como a China para retaliar noutros setores – consequência mais temida de uma guerra comercial.

Ainda mais preocupante na decisão de Trump é dirigir-se a todos os países indiscriminadamente. A OMC oferece mecanismos para medidas antidumping e de salvaguardas, usado quando um país deseja impôr punições a outro por práticas comerciais consideradas desleais.

Foi exatamente esse mecanismo que os Estados Unidos usaram para impôr uma tarifa de 39% à importação de certos tipos de aço laminado brasileiro em março de 2016 (no governo Obama, portanto). Logo depois da eleição de Trump, em novembro, o Brasil formalizou uma queixa junto à OMC. O caso ainda não foi decidido.

Desta vez, o aço brasileiro sofreu dano colateral de um ataque dirigido a México e Canadá nas negociações do Nafta. Entre 2010 e 2017, as exportações de aço brasileiras cresceram 110%, para um patamar de 14 milhões de toneladas, pouco mais de um terço delas destinadas aos Estados Unidos. Ao longo do último ano, as exportações para os Estados Unidos aumentaram quase 10% e chegaram a US$ 2,6 bilhões – no caso de alguns tipos de aços longos, a alta foi de até 120%.

A superprodução de aço no mundo, com metade do mercado dominado pela China, pressiona todos os países. Mas não foi só isso que levou Trump a tentar proteger a indústria local. O principal fator são as eleições legislativas deste ano. Como Bush, ele depende dos votos estados produtores de aço, em especial no Meio Oeste, para manter a maioria republicana no Congresso.

Só que os 140 mil empregos gerados no país pela siderurgia empalidecem diante dos milhões nas indústrias que compram e usam o aço importado – a começar pelas montadoras lá mesmo no Meio Oeste. Os próprios republicanos saíram ao ataque. O líder do Comitê de Finanças do Senado, Orrin Hatch, afirmou que tarifas são um “aumento de imposto de que o povo americano não precisa e que não pode pagar”.

“Estamos extremamente preocupados com as consequências de uma guerra comercial e imploramos à Casa Branca que não leve adiante esse plano”, afirmou o presidente da Câmara, o republicano Paulo Ryan. “A reforma tributária deu um impulso à economia e certamente não queremos prejudicar esses ganhos.”

O governo Trump provocou uma rachadura no consenso que havia no país em torno do livre-comércio. Os Estados Unidos abandonaram o Tratado da Parceria Transpacífica (TPP) e congelaram as negociações de um novo acordo comercial com a União Europeia.

É verdade que acordos comerciais geram vencedores e perdedores, muitos destes eleitores de Trump. Também é verdade que os Estados Unidos acumularam US$ 566 bilhões de déficit na balança comercial em 2017. Mas é simplista a visão, do secretário de Comércio Wilbur Ross e de seu conselheiro Peter Navarro, de que a importação “rouba empregos” e os déficits comerciais devem ser combatidos.

Eles também podem representar uma forma de importar poupança, aumentar investimentos e gerar crescimento. Já no clássico A riqueza das nações, Adam Smith explicava que o êxito econômico de um país vai além do que acumula em metais preciosos com as trocas internacionais. O livre-comércio deve ser incentivado porque, apesar das perdas para setores menos produtivos, gera mais riqueza para o país como um todo.

Entender a dinâmica do comércio internacional exige mais que uma reação apaixonada, movida pelo instinto nacionalista do protecionismo. Trata-se de uma questão antes de tudo racional. As falhas da globalização e os excessos do liberalismo têm consequências. Mas não podem servir de pretexto para o retorno do mercantilismo.

“Populistas como Donald Trump identificaram corretamente o mal-estar com o comércio”, diz o economista Dani Rodrik, um conhecido crítico da globalização. “Mas eles exageram enormemente o significado real da preocupação com o ‘justo’ e parecem determinados a consertar um problema cirúrgico com uma marreta.”




Fonte: G1