Postado em terça-feira, 26 de dezembro de 2017 às 10:49

Produção de café especial mais caro do mundo deslancha no Brasil

 O café especial mais caro do mundo é brasileiro. Além de ocupar a liderança na produção e exportação do produto tradicional, o país é campeão global em qualidade de um tipo diferente do grão. O produtor mineiro Gabriel Alves Nunes, que venceu o Cup of Excellence Brazil 2017 na categoria “Pulped Naturals”, vendeu a saca por R$ 55,5 mil, maior valor da história da competição. Já o café orgânico vencedor da categoria “Naturals” do concurso, cultivado no Espírito Santo, foi vendido por R$ 39.213,40, maior preço da história pago pelo fruto colhido e seco com casca na competição. Para ser classificado como café especial, o produto é avaliado de acordo com uma metodologia internacional. São analisadas diversas características do produto, como acidez, doçura, aroma, sabor, harmonia e finalização.

O Brasil é o maior produtor e exportador mundial de café. A produção nacional chega a cerca de 43 milhões de sacas por ano, um terço do café consumido no mundo. Apesar do incontestável volume produzido no país, o café brasileiro ainda não é conhecido lá fora por sua qualidade.


Os recordes de preços pagos pelos dois produtos nacionais ajudam a desmistificar a imagem do café brasileiro no exterior. “Esses resultados representam uma quebra de paradigma e acabam com resistências, além de não darem margens para questionamentos sobre a qualidade do café nacional”, explica a diretora-executiva da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA), Vanúsia Nogueira. A entidade realiza o Cup of Excellence, considerado o principal concurso de qualidade para cafés especiais do Brasil.

Metodologia


O café cultivado no Brasil tem características de bebida bastante complexas. O país tem uma grande extensão territorial e o cultivo do produto é diversificado em 26 regiões do país. Para ser classificado como um café especial, o produto deve atingir, no mínimo, 80 pontos dos 100 pontos da escala de pontuação, de acordo com a Metodologia de Avaliação Sensorial da Specialty Coffee Association (SCA).

A metodologia, com a respectiva escala de pontuação, é válida em todo o mundo. São avaliados aspectos peculiares do produto, como acidez, doçura, aroma, sabor, harmonia e finalização. No item conceito final, o avaliador confere a sua impressão geral sobre o produto. “O café especial é muito saboroso, valioso e de grande qualidade. Quem experimenta o produto, dificilmente volta a consumir o café comum”, provoca Vanúsia Nogueira.

O consumo de cafés especiais é o que registra os maiores índices de crescimento nos mercados brasileiro e mundial, avançando entre 10% e 15% ao ano, respectivamente, nos dois mercados. Por outro lado, a evolução do consumo dos cafés tradicionais gira em torno de 3% no Brasil e de 1,5% a 2% em todo o mundo, de acordo com a BSCA.

Produção

A Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA) projeta que foram produzidas até 8 milhões de sacas de cafés especiais em 2016. Desse total, 7 milhões de sacas do produto foram destinadas à exportação, em especial para os Estados Unidos e Japão, além da Europa. De acordo com os dados consolidados da entidade, entre 900 mil e 1 milhão de sacas de cafés especiais foram consumidas no Brasil no ano passado, respondendo por 5,1% do consumo da bebida no País. Esse volume implica crescimento de 18,1% em volume e 18,4% em valor entre os anos de 2012 e 2016. A movimentação financeira em 2016, somente no varejo de cafés especiais, foi de R$ 3,2 bilhões.

Cápsulas em evidência

As perspetivas de mercado para o produto são excelentes. Pesquisa realizada pela Euromonitor Internacional indica que o mercado brasileiro de cafés especiais, embora ainda represente um nicho, vem ganhando relevância e deve aumentar sua representatividade até 2021. O estudo mostra que, atualmente, o produto representa 2,8% do total de cafés. Esse índice deve evoluir e chegar a 5,1% do volume total em 2021, com a produção de 1 milhão de sacas. A Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA) projeta também um crescimento de 15% no consumo anual nesse nicho.

Os cafés especiais têm potencial para crescer no Brasil, especificamente nos estabelecimentos não especializados, que vêm ganhando espaço, de acordo com o estudo da Euromonitor. Nos estabelecimentos não especializados, a maioria franquia, o café não é o principal produto. O documento mapeia também 13.095 cafeterias no país com potencial para atender a demanda de consumidores mais dispostos a degustar o café fora de casa, em estabelecimentos especializados. Esse fenômeno é decorrente do interesse do consumidor por mais variedades e qualidade, além da busca por sabores e origens diversos. Esse anseio se dá por novos valores, princípios e hábitos do consumidor, que tem se focado em vida saudável — beber menos e beber melhor —, além da busca por autenticidade e responsabilidades social e ambiental dos fabricantes.

Inovações

O crescimento do mercado de cafés especiais é capitaneado pelos grãos e cápsulas. Os grãos representam a maior categoria em volume dentro dos cafés especiais. A categoria é a preferida dos chamados coffee lovers, pessoas que, além de frequentarem cafeterias, gostam de fazer a bebida em casa e apreciam a preparação do produto, que exige a moagem do grão. A moagem preserva uma qualidade superior ao café especial no momento em que se prepara o produto.

As cápsulas também contribuem para o crescimento do setor e reforçam o caráter premium do segmento. Elas apresentam o maior valor agregado e o maior preço por quilo, em comparação com as demais categorias, com um preço médio de R$ 365 por quilo. “Devido à sua praticidade e conveniência na preparação, cápsulas são relevantes e se expandem fortemente no varejo, por serem compatíveis a máquinas Nexpresso. Inovações como cápsulas retornáveis e biodegradáveis ajudam a superar barreiras ambientais”, revela o estudo. (MG)


Fonte: Correio Braziliense