Postado em segunda-feira, 16 de dezembro de 2019 às 08:24

O Comportamento do consumidor explica juros altos no Brasil

Estudo do Banco Central aponta que, em geral, cliente não controla gastos com cheque especial


 Existem vários elementos que explicam as altas taxas de juros cobradas pelo sistema financeiro nacional e recentemente foi introduzido nessa discussão pelo Banco Central um aspecto comportamental.

Trata-se do “imediatismo”, ou seja, o costume do consumidor brasileiro de utilizar o cheque especial de forma recorrente para satisfazer seu consumo imediato, sem que o valor da taxa que irá pagar o convença do contrário.

Com pouca concorrência efetiva no setor financeiro e escassas opções alternativas de crédito, esse comportamento é campo fértil para elevar os juros cobrados do cheque especial, que registra taxas estratosféricas de 305% ao ano.

Essa linha de financiamento é usada particularmente por quem tem menos recursos e menor escolaridade, associada à baixa educação financeira, constatou o BC em uma nota técnica produzida em novembro.

“A utilização recorrente do cheque especial – produto emergencial cujas taxas estão entre as mais altas disponíveis no sistema bancário – sugere a presença de padrões comportamentais que fogem à racionalidade completa ou a presença de forte restrição de acesso a outros produtos de crédito”, diz o texto.

Para entender esse fenômeno, os técnicos do BC recorreram à Economia Comportamental, que mescla economia com psicologia, neurociência e outras ciências sociais.

A resposta estaria nesse comportamento do consumidor de baixa renda que procura satisfazer seu desejo imediato, aparentemente sem relacioná-lo ao custo futuro.

Ele toma crédito no presente como se não houvesse amanhã.

No caso da maioria dos usuários do cheque especial brasileiro, isso se transforma em uma armadilha da qual ele tem dificuldades para sair.

"Os consumidores se arrependem de terem tomado muito crédito para satisfazer seu consumo imediato. Depois de terem tomado crédito e consumido, percebem que a mesma necessidade se apresenta nos períodos seguintes. Isso gera o arrependimento e o excesso de endividamento", avalia a nota técnica.

O estudo prossegue lembrando que esse "imediatismo" também impede que o cliente deixe de usar o cheque especial, mesmo com as tarifas elevadas.

Afinal, ele precisa recorrer novamente ao financiamento para pagar o que estava devendo.

O BC conclui que esse comportamento do brasileiro e a falta de competição entre os bancos é o que mantém os juros altos.

O estudo aponta que “a taxa de juros incidente na linha de cheque especial, no Brasil, cresceu ao longo dos últimos dois anos, a despeito da queda na taxa básica de juros, da manutenção no nível de inadimplência, e da queda dos spreads bancários para a quase totalidade das linhas de crédito livremente pactuadas entre instituições e clientes”.

Com base nesse cenário, o BC entendeu que seria melhor agir por conta própria, já que a concorrência no sistema financeiro não funcionou.

Estabeleceu um teto para a cobrança dos juros — 8% ao mês, contra os atuais 12% — e decidiu cobrar de quem tem um limite de crédito maior que R$ 500 ao mês.

A ideia é acabar com o subsídio cruzado: os clientes que têm limite baixo, mas utilizam bastante o cheque especial, pagam os custos dos bancos com os clientes mais ricos, que tem mais capital à disposição e recorrem menos a esse crédito.

A medida preserva o consumidor de baixa renda, cujo saldo diário médio é de aproximadamente R$400,00, e que continuará usando o cheque especial da mesma forma.

O BC recomenda ainda às instituições financeiras que seja dado tratamento diferenciado na elaboração da política de cheque especial. Importante mesmo seria o sistema bancário investir em disseminar educação financeira para seus clientes.

Gustavo Paul é coordenador de Economia da sucursal de O Globo em Brasília. Trabalhou nas redações de O Estado de Minas, Veja, O Estado de S. Paulo e Exame. Também foi assessor de imprensa do Banco Central e do BNDES.


Fonte: Epoca



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