Postado em quarta-feira, 27 de dezembro de 2017 às 10:38

Alisson se define como um goleiro simples e diz que venceu desconfiança na Seleção

Ao vestir a camisa 1 e ser o goleiro titular na Copa do Mundo de 2018, esse gaúcho de 25 anos entrará para...


 Cada vez menos gente se assusta com o fato de que Alisson é um dos jogadores mais importantes do futebol brasileiro. Ao vestir a camisa 1 e ser o goleiro titular na Copa do Mundo de 2018, esse gaúcho de 25 anos entrará para um seletíssimo grupo formado por Júlio César, Dida, Marcos, Taffarel, e daí para trás. Seleto, porém glorioso.

Alisson foi alçado ao posto por Dunga, em outubro de 2015, na vitória por 3 a 1 sobre a Venezuela, pela segunda rodada das eliminatórias. Uma escalação que teve cara de solução provisória, mas que nada. Desde então, o goleiro atuou em 22 das 26 partidas do Brasil, mesmo com dois contratempos nessa caminhada:

1.A troca de Dunga por Tite, que o levou a ter de conquistar também o novo técnico.
Sua ida do Internacional para a Roma, onde, na primeira temporada, atuou apenas em competições menos importantes.

2.Mas parece que o jogo virou, não é mesmo? Alisson se manteve titularíssimo da Seleção e atingiu esse status na Roma, que briga pelo título italiano e liderou seu grupo na Liga dos Campeões, com os poderosos Chelsea e Atlético de Madrid, que acabou eliminado.

A seis meses da Copa, o goleiro acredita ter superado a desconfiança e, nessa entrevista ao GloboEsporte.com, falou bastante sobre seu início na Seleção, as afinidades com Tite e Dunga, o sofrimento na adolescência “gordinha”, a ansiedade pelo Mundial e por ganhar a preferência dos brasileiros, e rebateu quem o acusa de não fazer milagres na meta.

– Eu gosto muito de simplificar as defesas. O futebol é simples, nós trabalhamos todo dia para tornar as coisas mais simples e fáceis. Algumas pessoas falam que eu não faço milagres. Prefiro fazer defesas mais simples e ser discreto dentro e fora de campo. Discreto em defesas e gestos.

Alisson, você tem a impressão de que houve por um tempo um certo estranhamento à sua condição de titular da Seleção? Uma desconfiança, talvez até por desconhecimento?
Isso de não me conhecer tanto é devido à última temporada, quando fiz poucos jogos na Roma, e em competições menos evidentes. Isso gerou certa desconfiança, mas não digo que me prejudicou porque não tive qualquer prejuízo técnico ou moral. Joguei quase duas temporadas no Internacional, 2015 foi meu ano de maior visibilidade, com Libertadores, Brasileiro e Seleção. Hoje tenho a oportunidade de mostrar mais meu futebol. Na Seleção eu não venho tendo tanto trabalho, felizmente a equipe joga um futebol consistente. Algumas pessoas cobram que eu não faço tantas defesas. Que bom se pudermos continuar nessa batida! Vou estar pronto quando precisarem.

Mas as críticas parecem ter cessado, você sente isso? Acha que venceu a desconfiança?

Superei essa questão da desconfiança desde o início, sempre provei que tenho condições e não caí de paraquedas na Seleção. Cresci nas seleções de base. Quem me conhece não é de hoje. Quando o Tite foi campeão da Sul-Americana no Internacional (2008), eu fazia alguns treinos no profissional. Depois nos reencontramos na Seleção. O Dunga também trabalhou comigo no Internacional. Estou no melhor momento da minha carreira, muito bem no Campeonato Italiano. Nós nos classificamos em primeiro num grupo que consideravam impossível na Champions, e pude contribuir, principalmente contra o Atlético de Madrid, numa das melhores partidas da minha vida. Fico feliz por ter mudado o cenário da temporada passada, ter virado a página, e espero chegar à Copa do Mundo não como unanimidade, porque isso não existe, mas com a preferência da maioria da torcida, o carinho e o apoio de todo mundo.

Nesse jogo contra o Atlético de Madrid, o Filipe Luís até brincou com sua atuação, reclamando de você ter pegado tudo.

O Filipe é um grande amigo, um grande jogador, uma grande pessoa e de grande caráter. Quando saiu o sorteio da fase de grupos, ele me chamou. Disse que a maioria estava comemorando, mas que haviam caído no grupo errado porque só havia bons goleiros: o Oblak no time dele, o Courtois no Chelsea e eu na Roma, que seria um grupo de poucos gols (risos).

Você disse que fez treinos com o Tite há quase 10 anos no Internacional. Acha que ele se lembra de você, e que ele já te olhava imaginando um goleiro para o futuro?

É uma boa pergunta para se fazer a ele. Eu era mais um menino subindo para treinar com o profissional, não sei se ele se lembra, mas acredito que sim, assim como o professor Fábio (Mahseredjian, preparador físico) e o Clebinho (Cleber Xavier, auxiliar-técnico). Eu já tinha uma projeção muito boa aos 16 anos, foi a época em que comecei a jogar de verdade e ser convocado para seleções de base, comecei minha estrada e fui sempre muito feliz.

Um pouco antes disso você sofreu com peso, não é? Seu estirão demorou a acontecer. Como você encarava isso, com os dilemas de um adolescente?

Encarei com seriedade porque sempre levei o futebol muito a sério. Desde pequeno eu sonhava grande e tinha objetivos traçados. Eu sabia que teria de trabalhar muito e emagrecer. Numa escala de 1 a 5, meu nível de maturação era 1, e outros já eram 5, evoluídos. Eu sofri muito com a diferença física, os outros goleiros eram mais fortes. Mas eu cresci 17 centímetros num ano, emagreci bastante, isso começou a me posicionar como um goleiro de respeito, grandão. Ganhei mais força, tanto que quando era juvenil treinava nos juniores, depois nos juniores treinava entre os profissionais.

Ter trabalhado com o Dunga em 2013, no Internacional, foi importante para que ele te convocasse em 2015 para a Seleção?

Acredito que ter trabalhado comigo não foi o principal fator para ele me convocar, e sim o que fiz em 2015, a campanha na Libertadores. Infelizmente deixamos o título escapar, é uma frustração muito grande. Tínhamos um elenco qualificado e belo futebol, mas fomos eliminados pelo Tigres, que montou um time muito forte. Ajudou ter trabalhado com o Dunga. Minha primeira partida no Internacional foi com ele. Em 2013, eu era entre terceiro e quarto goleiro. Jogava o Muriel, meu irmão, e ainda tinha o Agenor e o Lauro. Estávamos classificados e ele me escalou contra o Cruzeiro-RS para testar, dar motivação. Fui eleito o melhor em campo e, desde aquele dia, tive confiança dele. Depois tive que conquistar a confiança do Tite.

Você se estabeleceu com técnicos bastante diferentes. Dunga, Tite, também o Abel Braga no Internacional. Foi ele que tornou titular, certo?

E na época do Abel eu disputava com o Dida, não era qualquer nome. Tive a felicidade de trabalhar com esse grande ser humano, que fez história e é um amigo que carrego até hoje (falando sobre Dida). Eu sempre me dediquei muito. O Dunga me premiou sendo terceiro goleiro porque eu arrebentava nos treinos. O Abel me colocou para jogar em 2014 porque eu treinava muito forte. O Dida havia sido expulso e eu fiz uma grande partida contra o Fluminense. Nós ganhamos e ele me manteve no gol. No ano seguinte já cheguei à Seleção.

Que mensagem do Dunga te deixou mais ansioso? Quando ele avisou que você estrearia como profissional, em 2013, pelo Inter, ou para estrear na Seleção, em 2015?

Eram épocas diferentes. Eu recém-subido para o profissional, meu sonho mais próximo era vestir a camisa do Inter num jogo oficial. Foi gratificante, uma responsabilidade grande. Mas quando o Dunga disse que eu jogaria contra a Venezuela, foi o momento mais feliz da minha vida no futebol. Eu não podia falar para ninguém, a única pessoa para quem liguei foi meu irmão: “Cara, vou jogar”. E graças a Deus deu tudo certo, essa caminhada tem sido vencedora.

E o Dunga conseguiu ter algum carinho, algum cuidado nesses momentos, ou foi aquele Dunga do tratamento com a imprensa?

“Vai jogar e te vira”. (risos). Não, não, o Dunga tem aquele jeito mais brabo, grosso, mas é uma grande pessoa. Trabalhar com ele foi um prazer. Ele tem uma personalidade forte, de quem quer vencer, mas me transmitiu tranquilidade. Eu me lembro até hoje, ele não tem muito rodeio, é objetivo: “Eu optei por tu jogar, faz o que tu está fazendo nos treinamentos e dá teu melhor que vai dar tudo certo”. O Taffarel também me passou tranquilidade e o Jefferson me ajudou muito, muito mesmo. Eu tiro o chapéu para ele porque já era um goleiro consagrado que perdeu um pouco de espaço e me deu muito suporte. Temos contato até hoje, é uma pessoa muito bacana. Eu tinha 22 anos e a não dá para dizer que a camisa da Seleção não pesa. Pesa muito, tem muita história por trás. Eu orei bastante também.

Você disse que o Dunga é muito objetivo. E o Tite? Que peculiaridade dele mais influenciou nessa mudança que teve a seleção brasileira?

O Tite é muito detalhista, se preocupa com cada detalhe dentro e fora de campo. As engrenagens têm que estar sincronizadas. Ele cuida do lado pessoal de cada atleta. Houve um momento em que pedi a ele uma liberação para resolver problemas familiares. Ele liberou e depois veio perguntar como foi, se havia dado tudo certo. Ele cuida não só do jogador, mas do ser humano. Nós também temos sentimentos, às vezes nos magoamos. Aprendemos a lidar, mas é muita pressão vestir a camisa da Seleção. Torcedores e jornalistas são muito exigentes porque é uma seleção vencedora, jogadores a levaram a esse lugar, e espero que esse grupo seja vencedor também.

Você disse que até hoje é amigo do Dida. A nós ele passa aquela impressão gelada, de que pouco fala. Como você quebrou esse gelo?

O Dida já quebra o gelo, é um pouco brincalhão. No Internacional eram três goleiros jovens e ele, fazíamos questão de conviver, criar vínculo, almoçar e jantar juntos. O Dida é muito humilde e essa frieza dele é uma virtude de administrar sentimentos. Eu também não gosto de fazer uma defesa e xingar a zaga ou comemorar. Gosto de conter a emoção porque tu manda a bola para escanteio e 30 segundos depois tem que defender de novo. Ele era um mestre na gestão da emoção.

De fato, é difícil ver gestos espalhafatosos seus em campo. Você é um goleiro discreto?

Eu gosto muito de simplificar as defesas. O futebol é simples, nós trabalhamos todo dia para tornar as coisas mais simples e fáceis. Algumas pessoas falam que eu não faço milagres. Prefiro fazer defesas mais simples e ser discreto dentro e fora de campo. Discreto em defesas e gestos. Prefiro incentivar um zagueiro que erra e me comunicar de maneira objetiva, sem ofender ou colocar para baixo. Cada um reage de uma maneira. Quando há mais intimidade, você consegue cobrar de maneira mais forte, mas há a maneira certa, sem expor ou colocar a culpa em ninguém. Prefiro puxar o jogador para cima, é a maneira de fazer a equipe crescer.

Que defesas são memoráveis para você na Seleção?

A mais significativa foi contra a Argentina, no Mineirão, num chute de fora da área. Estava 0x0 ainda, e logo depois fizemos o gol. Contra o Uruguai defendi com o pé um chute do Suárez. Estava 2x2 e ele entrou cara a cara comigo. E contra o Paraguai acho que fiz as duas defesas mais difíceis, uma num cabeceio e outra num chute à queima-roupa, da pequena área.


E você concorda que a única falha foi contra o Equador, num lance que a arbitragem anulou, na Copa América dos EUA, em 2016?

Sou muito frio para analisar os lances, e concordo que ali seria uma falha. Seria um frango porque a bola passou no meio dos meus braços, mas tive um pouco de azar. Quando o Bolaños chutou e eu fiz o movimento de entrada, a bola desviou na trave. Ninguém percebeu isso. Depois eu fui ver o lance pensando no que eu tinha feito de errado. Eu me cobro muito, pensei que não era possível ter errado um gesto tão simples. A falha é quando tu poderia ter feito um gesto técnico diferente, e na minha opinião eu tinha feito o certo. Mas a bola mudou a trajetória, pegou no meu braço e entrou. Tive a felicidade de o lance não valer. Falha acontece com todo goleiro, fico feliz por essa não ter prejudicado em nada.

No meio do ano você recebeu a mensagem do Tite de que teria de jogar mais vezes, e agora é titular da Roma, brigando por títulos. Sua média de gols sofridos, por exemplo, é melhor que a do Ederson, seu reserva na Seleção, no Manchester City. Foi como você planejou?

Estamos jogando um futebol muito consistente. Minha equipe mudou um pouco a característica do último ano, é mais equilibrada, gosta de atacar, mas defende muito bem, com 11 atrás da linha da bola se for preciso. Pude fazer boas partidas, ajudar de forma direta, somos a terceira melhor defesa da Europa. O City tem uma característica de jogar para frente e se expõe bastante. Na Europa se leva muito em conta o “clean sheet”, que é o jogo sem sofrer gols. Eu já tenho 12 no Campeonato Italiano, vamos seguir nessa batida para conseguir lutar pelo Scudetto.


A Itália teve grandes goleiros, é um país que valoriza muito a posição. Julio César, Dida e Taffarel foram titulares da Seleção em Copas jogando na Itália. Você sente esse cuidado, essa importância dada à sua posição?

No Brasil nós trabalhamos mais explosão, força de perna, velocidade e intensidade. Aqui é mais cadenciado, trabalha-se muito a correção do gesto técnico, o posicionamento. A linha do meu treinador é estar sempre bem posicionado, fazer a passada correta, correr certo na bola. Eles são detalhistas e isso está me fazendo crescer. Temos que nos adequar à maneira da Seleção jogar, trabalhando bastante com os pés. O futebol vem se reinventando, usando mais o goleiro, na Europa se joga muito assim. Espero entrar nesse cenário de Júlio César, Dida, do Taffarel, que venceu a Copa. Quero muito jogar e vencer essa Copa do Mundo. Até chegar a convocação vou trabalhar forte para trazer o hexa para o Brasil.

E quais serão os principais adversários, na sua opinião?

No Mundial as equipes se transformam. A Argentina vai mudar muito o que apresentou nas eliminatórias, tem um plantel forte e cresce nos momentos decisivos. A Alemanha é a atual campeã, favorita. A Inglaterra tem força e velocidade, a França com grandes jogadores e um belo meio-campo. O futebol está muito equilibrado, será uma Copa disputada. Temos que focar em passar pela fase de grupos. Está cada vez mais perto e confesso que bate um pouquinho de ansiedade para chegar logo. Enquanto isso me preparo para tentar um título na Roma. Vim para ser vencedor, espero fazer uma grande temporada e chegar com a bateria 100% à Copa do Mundo.

Você viveu o sofrimento dos italianos por terem ficado fora da Copa do Mundo? Como foi?

Foi um momento muito complicado. Vi o jogo em Londres, onde estávamos para o amistoso da Seleção, e me marcou muito a cena do Buffon chorando, se despedindo da seleção. Isso não mancha sua história, mas a gente se solidariza. Para nós, no futebol, é um adversário a menos. Mas eu vivo aqui e vejo nos meus companheiros da seleção italiana, De Rossi, Florenzi, El Shaarawy e Pellegrini, uma frustração muito grande. Principalmente no De Rossi, que é muito sanguíneo, não sabe e não gosta de perder de jeito algum. Ele sentiu bastante, mas é um campeão do mundo, um profissional de primeira, e tem sido um prazer jogar ao lado dele, como foi com o Totti, outra lenda do futebol.

Uma curiosidade pessoal: Ramsés é seu segundo nome ou é sobrenome?

É meu segundo nome. O sobrenome é Becker, alemão.

E por que você se chama Alisson Ramsés? Seus pais eram apaixonados pela história egípcia? Ramsés foi um faraó importante.
Cara, não tem uma razão muito especial. Meu pai queria que meu nome fosse Ramsés, mas minha mãe escolheu Alisson. Então ficou como segundo nome, mas eu nem uso muito porque quando falo Alisson Ramsés, todo mundo fala “Ahn?”. Até explicar, deixa só Alisson.

Se seu pai ganhasse a disputa, então, o goleiro da Seleção seria Ramsés?

Eu ia usar só o sobrenome (risos).

Ia dar trabalho para o Galvão narrar suas defesas.
Ia ficar complicado. Rrrrrrrrrrrrrramsés. Mas ia ter o “R”, ele ia gostar (risos).




Fonte: Globo Esporte Seleção Brasileira