Postado em sexta-feira, 18 de agosto de 2017 às 19:07

Gol que conquistou a América completa 20 anos

Alessandro Emergente

Vinte anos se passaram. Mas o chute certeiro de Elivélton Rufino, que garantiu o bicampeonato da Libertadores da América para o Cruzeiro, ficou eternizado nas memórias dos torcedores. No último dia 13 o gol do atacante, que nasceu em Serrania e hoje mora em Alfenas, completou exatamente duas décadas.

Era noite de quarta-feira, mais de 95 mil torcedores foram ao Mineirão “empurrar” a Raposa, que chegou a final contra o Sporting Cristal, do Peru. A primeira Libertadores, o título mais importante da América, havia sido conquistado 21 anos antes, em 1976. Em 1997, no entanto, muitos não acreditavam que o Cruzeiro, do treinador Paulo Autuori, chegasse aonde chegou. Afinal, foram três derrotas nas três primeiras partidas. Uma delas contra o próprio Sporting Cristal.

Os detalhes que antecederam aquela final, desde os vestiários até o gramado, não saíram da memória de Elivélton, que lembra entusiasmado de cada momento como “se fosse hoje”. Logo na chegada ao Mineirão, o ex-atleta lembra a recepção dos torcedores, balançando o ônibus da Raposa e incentivando o elenco. Depois, a entrada no gramado ao lado de sua primeira filha, Stefani. “Foi uma loucura. Era de arrepiar”, relembra.

Depois de comemorar o gol do título (acima), Elivélton recebe o troféu de campeão da Libertadores da América (Fotos: Reprodução)


Foi do pé direito do atacante Elivélton, que saiu o gol do título. Isso aos 30 minutos do 2˚ tempo, após um confronto de 165 minutos sem gols – considerando que no jogo de ida, no Peru, o placar tinha ficado em zero a zero.

E o gol heroico saiu de um jeito improvável, da perna direita do canhoto Elivélton. O ex-atacante lembra que o lance foi todo atípico. Quem foi para cobrança foi o lateral esquerdo Nonato (quem costumava bater era Palhinha), que não cobrou bem, mas a defesa peruana também cortou mal e a bola foi parar na entrada da área, onde estava Elivélton.

De perna direita, que não era a boa, Elivélton acertou um chute de fora da área. O goleiro peruano ainda tocou na bola, mas deixou escapar e ela foi parar no fundo das redes.

Mais um detalhe: nas cobranças dos escanteios, o camisa 20 do Cruzeiro costumava ficar do lado esquerdo do ataque, aguardando o rebote. Naquela noite, Elivélton estava do outro lado, aguardando o momento de escrever seu nome na história do Cruzeiro.

Pouco antes do início da grande final, equipe entra em campo diante de mais de 95 mil torcedores (Foto: Reprodução)


O ex-atacante recebeu a reportagem do Alfenas Hoje, na última terça-feira, e foi questionado sobre a decisão de aguardar o rebote num local onde não costumava ficar. Ele disse não ter uma explicação lógica para um lance que foi todo “esquisito”, mas afirma que “nada acontece por acaso” ao enfatizar sua fé em Deus.

Foi na época de sua passagem por Belo Horizonte, que Elivélton se tornou evangélico. “Atribuo toda a glória a Deus. Se Deus não tiver à frente, nada acontece”, enfatiza.

O gol do título foi relembrado essa semana pela imprensa mineira. Acima, 20 anos depois, Elivélton narra o seu próprio gol para a Rádio Super Notícia FM (Foto: O Tempo)



Elivélton não esquece os ensinamentos de Telê Santana, seu treinador no São Paulo. O exigente Telê fazia com que os atletas treinassem chutes a gol com a perna que “não era a boa” – no caso do canhoto Elivélton era a direita. “Saíamos com a perna inchada de tanto chutar”, relembra com respeito do antigo treinador que considera, ao lado de Autuori, os dois grandes mestres na carreira.

Quase do outro lado da Lagoa

Nem todos se lembram, mas a história por pouco não foi diferente. A diretoria do Atlético-MG chegou a anunciar Elivélton como seu grande reforço para a temporada de 1997. Mas o atacante foi parar do outro lado da Lagoa da Pampulha. Hoje, Elivélton revela que pesou na decisão o fato do Cruzeiro, naquele ano, disputar a Libertadores da América.

Elivélton sendo entrevistado por Bob Faria, hoje comentarista da TV Globo e na época repórter da Rádio Itatiaia (Foto: Reprodução)


O fato é que Elivélton ficou eternizado na memória do torcedor cruzeirense, que não esquece o ídolo, símbolo da conquista da Libertadores de 1997. Tanto que no final deste mês a Geral Celeste, uma das torcidas organizadas, promoverá um jantar comemorativo para Elivélton e para todo o elenco bicampeão.

Outras homenagens já foram feitas por diretorias passadas, com recebimento de medalhas, inclusive. As maiores vieram da própria torcida, como em 2006, quando atuava pelo Uberlândia, e foi aplaudido pelos cruzeirenses ao deixar o gramado. Mas Elivélton não esconde que esperava uma homenagem oficial da atual diretoria pelos 20 anos de conquista.

Se são-paulino quando criança, clube que o projetou para o futebol nacional (chegando a seleção brasileira), Elivélton revela que não deixou de lado sua paixão pelo tricolor, mas acabou sendo conquistado pelo Cruzeiro. Tanto que em casa a torcida é azul. Seus três filhos – Stefani, 21 anos, Emily, 20 anos, e Gabriel, 18 anos, - são cruzeirenses.

No mês passado, Elivélton e os filhos foram ao Mineirão acompanhar o Cruzeiro contra o Palmeiras pela Copa do Brasil. O empate, em 1 a 1, garantiu a classificação da Raposa, demonstrando, mais uma vez, o pé quente do ídolo cruzeirense.

Com os três filhos e o genro, Elivélton foi ao Mineirão para acompanhar a partida contra o Palmeiras (Foto: Instagram)


A história de Elivélton com o Cruzeiro poderia ter começado na base. Antes de ser profissional, chegou a fazer testes na Toca da Raposa e passou. Mas acabou desistindo de seguir a carreira futebolística e retornou para trabalhar na Usina Monte Alegre, em Alfenas.

Mas sempre incentivado pelo pai voltou aos gramados pelo Esportivo, de Passos. Antes, porém tentou carreira no América, de Alfenas, mas reclama da falta de oportunidades. “Não acreditaram em mim”, disse o atleta que, cerca de 20 anos depois, em 2007, foi defender as cores do Alfenense pela 2ª divisão do Campeonato Mineiro.

A caminho da seleção

A atuação pelo Esportivo chamou a atenção de grandes clubes. O treinador Carlos Alberto Silva, que havia treinado o Cruzeiro e estava a caminho do São Paulo, o levou para o Morumbi. Foi no tricolor paulista que o rápido ponta esquerda (na época as equipes ainda atuavam com os pontas abertos) se destacou e chegou a seleção brasileira.

Foram 13 jogos pela seleção e um gol, marcado contra a Tchecoslováquia, em um amistoso em 1991. Mas um gol que Elivélton relembra com orgulho. Deixou três adversário, antes de marcar o primeiro gol na vitória por 2 a 1.

Pela seleção brasileira foram 13 partidas disputadas (Foto: Getty Images)


Ter ficado de fora da lista de atletas para a Copa de 1994, após estar nas convocações para as Eliminatórias e Copa América, foi a grande decepção da carreira. No lugar dele, Carlos Alberto Parreira convocou Paulo Sérgio, que até então não tinha sido convocado – o que gerou críticas da imprensa na época.

Conhecido por marcar gols decisivos, foi o chute de Elivélton, de fora da área, que garantiu para o Corinthians o título do Campeonato Paulista, de 1995, na final contra o Palmeiras. Dessa vez, no entanto, com a perna esquerda.

Na carreira, foram três Libertadores da América (duas pelo São Paulo e uma pelo Cruzeiro), um Brasileiro, uma Copa do Brasil e seis campeonatos estaduais (um mineiro, um capixaba e quatro paulistas). O atleta também chegou a vestir a camisa do Internacional, de Porto Alegre, Bahia, Vitória, entre outras equipes.

Elivélton se dedica a escolinha de futebol, para garotos de 6 a 14 anos (Fotos: Alessandro Emergente/Alfenas Hoje)


Hoje, Elivélton vive com a esposa e os filhos em Alfenas, onde tem um empreendimento, Elivélton Sporting Center. Além de uma academia e a locação de campo para futebol socyte, o ex-jogador tem uma escolinha de futebol para garotos de 6 a 14 anos. São mais de 40 meninos que treinam de segunda a quinta-feira sob o comando do ex-camisa 20 do Cruzeiro.

Aos 46 anos, Elivélton mata a saudade dos gramados no futebol amador. Recentemente, ele fez o gol do título do Divino Rodosul. Mas o gol teve um detalhe especial: o passe saiu dos pés do filho, Gabriel. “Essa é a vantagem de ter sido pai ainda novo. Poder jogar ao lado do meu filho”, comenta. 








   
COMENTÁRIOS

Os comentários são de responsabilidade exclusiva dos autores.


 

0 Comentários

Comentar essa Notícia
 
   
Termos e Condições para postagens de Comentários
Comentar essa Notícia










Alfenas Hoje - Jornalismo com responsabilidade
Copyright © 2007 - 2017 - Todos os direitos reservados

Adapt Soluções e Treinamentos