O Documentarista


Certo dia, um estranho chegou à cidade, veio correndo pela avenida principal, apontava uma câmera para o interior dos comércios e perguntava: “Onde está o amor? Alguém viu o amor?”.


Correu o dia todo com a filmadora em punho, parava apenas para ir ao banheiro e se alimentar. Vestia-se com simplicidade e carregava um embornal surrado, no qual guardava baterias e cartões de memória para seu equipamento. Entre tropeços nas calçadas desgastadas e tombos nos buracos do asfalto, perguntava em todos os comércios, ruas e praças pelas quais passava: “Onde está o amor?”.

 

Insistia surpreendendo os transeuntes com “Alguém viu o amor?”, ninguém escapava de sua pergunta. Documentou todas as reações, abordando diferentes gêneros, idades, classes, cores e credos: “Onde está o amor? Alguém viu o amor?”.


Muitos simplesmente ignoravam, outros se irritaram com a insistência, ameaçavam “partir para cima” ou chamar a polícia, enquanto outros se divertiam e respondiam com sarcasmo e ironia. Apenas a minoria se sensibilizava com a pergunta e tentava respondê-la. Contudo, o documentarista nunca se satisfazia com as respostas. Para ele, não passaram de argumentos da mesmice, revelando apenas o museu de “novidades” da consciência coletiva daquela pequena cidade entre as montanhas.


No prédio da prefeitura, não encontrou ninguém disposto a falar, sendo absolutamente desconsiderado. Perguntou também em outras repartições públicas: “Onde está o amor? Alguém viu o amor?”, mas recebeu a instrução de que a questão era assunto de outro departamento.


Das agências bancárias, foi convidado a se retirar. Na delegacia, após ser ignorado, foi ameaçado. No fórum, não conseguiu sequer entrar, pois alegaram que estava mal vestido e advertiram-no que ali só eram tratados assuntos sérios.


O documentarista fez uma rápida e furtiva filmagem nas escolas, flagrou a maldade ingênua das criancinhas durante as brincadeiras do recreio. Filmou colegiais medindo uns aos outros em competições consumistas e alienadas na hora do intervalo. Por meio das frestas de portas entreabertas das salas de aula, flagrou cenas de professores despreparados, repletos de moral retrógrada, tratando alunos como sacos vazios.


Ao passar pelos hospitais e postos de saúde, documentou a angústia dos olhares aflitos daqueles que enfrentavam a fila, como bebês birrentos, mães tristes, pais quebrados e indignados. Uma menina de 14 anos com complicações na gravidez sentada ao lado de um velho delirante em dor, os dois esperando vaga. “Onde está o amor? Alguém viu o amor?”: ninguém ousou responder. O documentarista repetiu a pergunta mais uma vez e se retirou.


O inusitado estranho continuou correndo pela cidade com sua câmera em punho até o cair da noite. Só então, ele se aquietou para procurar o amor em igrejas e templos. Procurou em prédios imponentes repletos de ornamentos e em simples galpões de tijolo baiano e cimento. Documentou a demagogia imaculada, inúmeras diferenças materiais e literárias e a ausência de qualquer diferença na essência, aquela essência que está para além das doutrinas institucionalizadas. Nestes locais consagrados e sagrados, ele conseguiu registrar, ao menos, gente à procura do amor...


No dia seguinte, acordou com o sol e deu continuidade à sua incansável busca. Correu para outra cidade, vagando por aí até hoje, sempre procurando esclarecer por meio da sinceridade de sua dúvida: “Onde está o amor? Alguém viu o amor?”.


 
 
Leonardo Miranda
Jornalista
Leonardo Miranda é jornalista formado pela Unaerp (Universidade de Ribeirão Preto) e atuante em Alfenas há sete anos. Há 5 anos trabalha como repórter na TV Alfenas e há três anos é o profissional responsável pelo conteúdo da Revista QShow.


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