Postado em 27 de março de 2017

Mas, o que acontece no caminho?

Autor: Daniela Rosa

Eu já falei aqui em outro texto desta coluna sobre a importância do que eu costumo chamar de “maternar em grupo”, também já falei sobre como estar junto de outras mães e gestantes pode ser precioso para que tenhamos acesso à informação que pode nos ajudar a construir um caminho para a maternidade consciente. Mas quero aqui nesta conversa de hoje retomar um pouquinho este assunto pra fechar este mês de março em que ele ganhou bastante espaço na mídia alfenense e que terá, neste ano de 2017, outros momentos de grande visibilidade de debate: o parto respeitoso, o parto “humanizado”.

Este termo vive dias de profundo desgaste dado ao uso irrestrito e muitas vezes sem qualquer compromisso com seus reais fundamentos. Aliás, é comum ouvir comentários do tipo “mas, todo parto é humanizado. Somos humanos!” ou, como um que ouvi recentemente “minha professora fala que tem ojeriza de gente que fala ‘parto humanizado’”. Estes comentários são, portanto, reveladores do desgaste do uso da expressão, mas em nada devem esvaziar a necessidade de haver uma luta cada vez maior por partos respeitosos, por mulheres verdadeiramente informadas e pelo fim da violência obstétrica.

Diante disso, não são raros os momentos em que me vejo falando muito mais a respeito daquilo que NÃO faz parte de uma definição correta de parto humanizado: não é o parto da moda (!); não é parir sem anestesia (quero dizer, não é obrigatório parir sem anestesia, a mulher tem autonomia para avaliar se deseja ou não fazer uso de analgesia); e também não é parir debaixo de um pé de jaca. Mas afinal, o que é o parto humanizado, que eu tenho também chamado de “parto respeitoso” pelos motivos que expus no parágrafo anterior? Bom, eu quero ficar com uma parte da resposta a esta pergunta, para poder então chegar, finalmente, na discussão que o título propõe.

Quando perguntadas no início da gestação a respeito da maneira como gostariam que seus filhos viessem ao mundo, 80% das mulheres têm o parto normal como preferência. Ou seja, de acordo com estes dados, apenas 20% das mulheres teriam desde o início da gestação a cirurgia como uma escolha. Portanto, estamos diante de números muito mais próximos da recomendação da OMS (Organização Mundial de Saúde) que preconiza que 15% das mulheres precisaram de algum tipo de intervenção para trazer seus filhos ao mundo (não necessariamente cirúrgica, mas este é assunto pra outra coluna).

Mas o que vemos na ponta desta linha é na verdade uma inversão destes números, vemos uma epidemia de cirurgias que contraria absurdamente o desejo que a maioria das mulheres expressam inicialmente. Claro que neste momento certamente muitos de meus leitores e leitoras podem estar com a palavra “escolha” na mente como primeira e soberana justificativa para tal inversão. Mas eu não poderia parar aí. Obviamente não quero (e realmente não quero!) questionar a escolha, qualquer que seja ela, mas me inquieta muito o desejo de tentar compreender minimamente onde foram coletados os elementos para que tal “escolha” fosse feita. Considerando que escolher é eleger, me parece que um dos candidatos foi superestimado.

É exatamente a partir deste fio de compreensão do problema que está minha atuação na cidade, a esta altura todos nós temos em mente que o candidato “depreciado” neste processo seja o parto normal e que existe um elemento fundamental sendo aparentemente deixado de lado: não há escolha sem informação. Talvez muito mais aconteça neste caminho de nove meses que separa a gestante que deseja um parto normal, da mulher submetida a uma cirurgia. E eu jamais deixo de lado o fato de, dentre elas, haver um grupo que certamente precisa de algum tipo de intervenção pra dar à luz (veja bem, não se trata de demonizar a cesárea, mas de refletir se realmente tantas mulheres precisariam de cirurgia. Chegando a alarmantes 100% em alguns serviços.) O que eu quero dizer com tudo isso é que existe uma lacuna grave na qualidade da informação que chega a nós mulheres sobre gestação e parto, existem “mitos” e inverdades propagados aos montes que tratam a gestação como uma patologia e não como um evento fisiológico.

Por isso há três anos me reúno com gestantes para conversar a respeito disso. Meu objetivo? Com certeza não é voltado para um trabalho de convencimento dos 20% que desde o início desejam uma cesariana, também não é de convencer a parte dos 80% a querer, sem recuar, um parto normal. A escolha é sempre soberana e minha atividade não é de persuasão, mas eu quero falar com aquela parcela dos 80% que se mantém firme no propósito de trazer seus filhos naturalmente ao mundo, aquelas que de maneira intuitiva, ou por saberem das reais vantagens de um parto normal (respeitoso!) buscam apoio, escuta e um espaço de debate e compartilhamento de informação. Ainda são poucas, há reuniões que ficamos somente eu e o som do relógio da sala que preparo para recebê-las. Como agora no momento em que escrevo este texto. Aliás, pensando bem, este canal me fez amplificar o encontro de hoje. O Materna Alfenas segue sabendo que os processos mais importantes levam tempo.

Daniela Rosa
Cientista Social
Socióloga e educadora. Fundadora do grupo Materna Alfenas. Apoio à Gestação, Parto e Pós-Parto.

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